quarta-feira, 30 de março de 2011

Margarida Barreto em entrevista para o SINJUS-MG

Margarida Barreto é Mestre e doutora pela PUC-SP, vice-coordenadora do Núcleo de Estudos Psicossociais da PUC-SP, professora da pós-graduação em psicologia social, também na PUC-SP, e do Curso de Especialização em Medicina do Trabalho da Santa Casa de São Paulo. Entre suas publicações importantes: Violência, saúde e trabalho: uma jornada de humilhações (Educ, 2006) e Pedagogia Institucional (Zit, 2004), Revista Nacional de Direito do Trabalho, da qual é editora.


Sinjus-MG - MARGARIDA, SEGUNDO A SUA EXPERIÊNCIA COM DENÚNCIAS DE ASSÉDIO MORAL, O QUE VOCÊ ACHA QUE REALMENTE PODE MUDAR, APÓS A SANÇÃO DE UMA LEI COMO A 116/2011?
 Margarida Barreto: É uma conquista do movimento organizado, em especial do Sinjus e do Serjusmig. A lei é uma ferramenta importante: ajuda no combate ao assédio moral no local de trabalho, tenta barrar o abuso de poder neste setor e coibir o sentimento de impunidade, da visibilidade a uma pratica nefasta e colonialista, o que por si, já constitui uma grande vitoria.
A partir de agora, tanto chefes como subordinados e colegas pensarão duas vezes antes de discriminar, desqualificar e humilhar o outro. Mas, é necessario vigilância constante, combater o medo, o individualismo, as pequenas disputas. Mobilizar e organizar o movimento sindical e trabalhadores, para que resistam e avancem na luta, pela conquista do trabalho decente e seguro. Sindicato e trabalhadores juntos poderão desenvolver e propor nova forma de organizar e administrar o trabalho associado ao necessario respeito ao outro nas relações laborais.

Sinjus-MG - VOCÊ ACHA QUE PODEMOS INTERPRETAR A DECISÃO DAS INSTITUIÇÕES FINANCEIRAS EM ASSINAREM UM ACORDO CONTRA O ASSEDIO MORAL EM DEFESA DOS BANCÁRIOS COMO UMA MUDANÇA DE COMPORTAMENTO MILENAR?
 Margarida Barreto: Representa uma pequenina e importante mudança: reconhecer que existe a pratica na instituição, de abuso de poder e autoritarismo. É bom não esquecermos que esse setor respondeu a vários processos de trabalhadores e perderam em muitos casos. Concordo que seja uma mudança, pois no inicio, eles negavam que existia o assédio. Como outras instituições, lançaram mãos de Códigos de Ética, de Ouvidorias, de Normas de Conduta, cuja preocupação era resolver o caso internamente e não deixar ter visibilidade social. Estavam preocupados com a imagem de responsáveis socialmente. Depois, veio a época dos seguros contra o assédio, uma proteção contra os altos custos com as indenizações.
O mais importante e que falta aos Bancos assumir e fazer: mudar a política organizacional e contratar mais trabalhadores, reduzir a jornada, não sobrecarregar de tarefas ou exigir metas de antemão sabidas que serão inalcançáveis. A elevação do lucro não pode estar assentada e condicionada a um maior grau de exploração dos trabalhadores, ou seja, a intensificação do trabalho, ao prolongamento da jornada e rebaixamento de seu salário.
Sinjus-MG - VOCÊ ACHA QUE A SANÇÃO DA LEI 116 JÁ PODE TER INFLUENCIADO NESTE CASO?
Margarida Barreto: Sem duvida. Os empresários estão sempre atentos e vigilantes com suas finanças, seus lucros, sua imagem, suas possíveis perdas. Outros fatores podem ter influenciado, como por exemplo, a Lei Nº 11.948, de 16 de junho de 2009 que veda empréstimos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social - BNDES a empresas que tenham prática de assédio moral em seu Art. 4º: “Fica vedada a concessão ou renovação de quaisquer empréstimos ou financiamentos pelo BNDES a empresas da iniciativa privada cujos dirigentes sejam condenados por assédio moral ou sexual, racismo, trabalho infantil, trabalho escravo ou crime contra o meio ambiente”.
 É uma conquista da classe trabalhadora, seguramente. È importante enfatizar o admirável trabalho da Comissão de Combate ao Assedio Moral deste sindicato o Sinjus e do Serjusmig. Esta vitoria pertencem a todos e foi possível graças ao trabalho incansável do Robert, coordenador do Sinjus, do Rui vice Serjusmig, do Leonardo Militão advogado e do Arthur Lobato, psicólogo. Estão de parabéns os sindicatos e todos os trabalhadores desta categoria. É um exemplo a ser seguido por outros.

Rui vice Serjusmig, Robert, coordenador do Sinjus, Lidia Guevara, jurista cubana, Leonardo Militão advogado e Arthur Lobato, psicólogo


Sinjus-MG - APÓS ANOS DE LUTA COMBATENDO ESTE MAL, QUE POSSIBILIDADE VOCÊ VÊ DE ACORDOS COMO ESSE SE TORNAREM UMA TENDÊNCIA? Os bancários têm inovado, tem lutado, tem discutido muito e não foi fácil chegar a esse acordo, posso lhe afiançar. Eles deram exemplo de luta, ao não individualizar o assedio. Compreenderam que o combate deve ser coletivo pois a causa da existência desta pratica, está assentada nas mudanças que ocorreram a partir dos anos noventa: reestruturações, demissões massivas, nova política de metas, muita pressão e ameaças.


Margarida Barreto:
Os sindicatos responderam ao assédio moral com movimentos de resistência coletiva, com denuncia, dando visibilidade máxima a política organizacional. Exemplo foram as greves neste setor, nos metalúrgicos de São Paulo, em alguns Hospitais da Região Norte, Nordeste. Ressalto que a primeira greve contra o assédio moral ocorreu em Taubaté na LG Eletronic. A greve acabou com a assinatura de um acordo entre o Sindicato dos Metalúrgicos de Taubaté e a Empresa. Vários outros movimentos de resistência foram surgindo pelo Brasil.
Não basta falar em qualidade de vida quando a jornada prolongada adoece e até mata. Quando o ambiente de pressão entra em contradição com o discurso da instituição! Os bancos sentiram a necessidade do acordo. É um primeiro passo de muitos que deverão ser dados e conquistados! E certamente, outras empresas tentarão acordos. Mas, qualquer que seja o acordo, não se pode barganhar vida, saúde, dignidade. Não se pode assinar um papel e não cumprir na pratica. Não se pode exigir brilho nos olhos de quem trabalho quando se mata o outro com uma avaliação individual e subjetiva, que desqualifica e não reconhece o trabalhador como um sujeito de direitos. Não se pode abrir mão da afetividade ética e autonomia que deve existir nas relações laborais.

Sinjus-MG - VOCÊ TEM CONHECIMENTO DE OUTRAS CATEGORIAS ASSINANDO ACORDOS DESSE TIPO?
Margarida Barreto: há muitos sindicatos que conquistam clausulas em suas convenções ou acordos coletivos como o Sindicato dos Metalúrgicos, Sindicato dos Químicos de São Paulo, Sindicato dos Químicos Unificados e tantos outros. O que verificamos é que ha consenso em todas as categorias sobre o tema assedio moral, ou seja, faz parte da pauta de negociação como pontos específicos o fim do ASSEDIO MORAL e melhores condições de trabalho.


PORQUE NÃO SE CONSEGUE APROVAR UMA LEI FEDERAL QUE VALHA PARA TODAS AS CATEGORIAS PROFISSIONAIS BRASILEIRAS?
Margarida Barreto: As pressões são muitas e vem de todos os lados em especial das grandes corporações! O lobby de deputados comprometidos com o grande capital, é forte, coeso. Haja visto que o projeto de lei do ex-Deputado Mauro Passos, passou por varias instancias e sofreu vários impedimentos: organização de deputados que atuam contra os trabalhadores e a favor das corporações. Se você observar, existem vários projetos, importantes no âmbito federal e que não andam. Estão parados. É necessario pressão do movimento organizado!

Sinjus-MG - ALGUMAS CATEGORIAS AINDA ESTÃO REVOLTADAS POR ESSA LEI TER SIDO DIRIGIDA APENAS À ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA DO ESTADO. QUE ORIENTAÇÃO VOCÊ PASSARIA A ELES?
Margarida Barreto: Uma lei ajuda porem não resolve tudo. É um auxilio importante. A vida é movimento, transformação, criação e resolve compreender que é necessario lutar conjuntamente. Compreender que o assedio não é uma questão simplesmente do chefe A ou B. É conjuntural e estrutural, mesmo quando a manifestação é individual! Não desistir de dar visibilidade, denunciar, pressionar e sensibilizar o colega do lado que assiste as humilhações. Compreender que nenhuma empresa ou seu representante legal, quer seja publica ou privada, tem o direito de humilhar um trabalhador. Quanto uma pessoa procura emprego, ela não está vendendo sua dignidade, sua honra, seus valores. Esta dimensão não tem preço e quando um chefe ou mesmo colega humilha o outro no trabalho, tanto a instituição que nada fez como o colega ou chefe humilhador, são co-responsáveis pela violência cometida!

Sinjus-MG - O SINJUS-MG LUTOU E MOBILIZOU INTESAMENTE CATEGORIA E AUTORIDADES PARA ALCANÇAR TAL CONQUISTA. COMO VOCÊ VÊ O PAPEL DOS SINDICATOS NESSA LUTA?
Margarida Barreto: O lugar dos Sindicatos continua sendo fundamental. É movimento social e como tal, é uma força motriz das grandes transformações que hão de vir. Você sabe que a luta tem vários desdobramentos, e por isso, não pode ser solitária ou nos gabinetes. É necessario audácia com valorização do trabalho e dos trabalhadores! Deste modo, negociar as reivindicações específicas sem esquecer-se das gerais. Lutar e mobilizar os trabalhadores sem esquecer-se de organizar por local de trabalho. É apoiar o individuo e solidarizar-se com muitos. Os seres humanos necessitam de outros seres humanos e por isso, é necessario dar as mãos para que possam se libertar da tortura do trabalho cansativo, monótono, fragmentado, intensificado. É pensar mudanças na organização de trabalho, impulsioná-las e conquistá-las. É ter presente que a classe trabalhadora continua sendo o motor da historia! E este aspecto não deve ser descuidado

2 comentários:

Sergio Narujo disse...

QUE MATÉRIA IMPORTANTE PARA A CLASSE TRABALHADORA PREINCIPALMENTE OS TRABLHADORES QUE SOFREM DO ASÉDIO MORAL POIS TAMBÉM FUI VITIMA E ATÉ AGORA SOFRO PERSEGUIÇÕES.
MONTAMOS AQUI EM PIRACICABA S.P A PRIMEIRA COMISSÃO CONTRA O ASSÉDIO MORAL NA ESFERA DO TRABALHADOR MUNICIPAL.
ABRAÇOS DE JURUNA DIRETOR DE BASE SINDICAL EM PIRACICABA E SÃO PAULO

Renata Alcantara disse...

Boa tarde é possivel obter o e-mail de contato da Dra. Margarida?