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segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Conflitos no trabalho

Por Arthur Lobato, psicólogo, responsável técnico pelo Departamento de Saúde do Trabalhador e Combate ao Assédio Moral (DSTCAM) do SITRAEMG


Quando pensamos nos conflitos no trabalho, que muitas vezes evoluem para o assédio moral, devemos analisar a natureza humana – afinal, somos seres do conflito, como já diziam os filósofos e os reformadores religiosos. Um dos textos mais antigos do mundo, o hindu Bhaghavad-gitã, mostra a luta do guerreiro Arjuna contra outros guerreiros, mas, principalmente, contra si mesmo. Neste texto milenar encontramos a definição de Arjuna sobre a mente dividida, uma das características do ser humano: “A natureza da mente é vacilante, às vezes ela aceita algo e imediatamente rejeita a mesma coisa. O aceitar e o rejeitar constituem o processo da mente”. Este pensamento que revela o ser clivado, dividido, tão bem analisado por Freud, encontramos também nos textos de um dos fundadores do cristianismo, o apóstolo Paulo, que escreveu na carta aos romanos: “Porque o que faço não o aprovo; pois o que quero, isso não faço, mas o que aborreço isso faço”. Assim, temos o primeiro tipo de conflito, o conflito intrapsíquico, ou seja, conflito entre eu e eu mesmo. Uma das causas do conflito intrapsíquico é a realidade da morte, que não podemos negar, mas que buscamos através da religião, da arte, da loucura, subterfúgios para escapar desta dura realidade, nossa mortalidade, esse conflito entre viver e morrer, que gera o pânico, o desespero, a ansiedade, a depressão e este conflito só termina com nossa morte. Entretanto, segundo as religiões, ainda seremos julgados por nossos atos e pensamentos, e assim, vivos ainda imaginamos nosso conflito pós-morte. Se somos seres do conflito, como conviver um com o outro?
A resposta é o poder absoluto do Estado sobre o indivíduo, fruto do pacto social, como Thomas Hobbes escreveu em sua obra “O Leviatã”. O Estado, na pessoa do soberano e de suas instituições, será mais forte e poderoso que o indivíduo e julgará e punirá os conflitos entre seus súditos. Mas nos conflitos entre estados, que levam às guerras, conflito entre nações, que são na realidade conflitos entre seres humanos de países diferentes, não é mais a violência de um indivíduo, mas a violência da comunidade. Afinal, por que tamanha violência de um ser humano contra outro ser humano? Por que é tão difícil “amar o próximo como a ti mesmo”? Freud, em sua obra “O mal estar na cultura”, já avisava: “fora da civilização somente existe a barbárie”, ou seja, ou o ser humano reprime seus instintos agressivos ou uma sociedade realmente humana jamais existirá, pois, como disse o psicanalista, fome e sexo são nossas pulsões primárias, e para satisfazê-las o ser humano realiza todas as transgressões – principalmente, matar, eliminar quem se opõe ao seu desejo, por isso a sociedade é construída no recalque destas pulsões primárias. Freud destaca, em sua obra o “conflito de opinião”, que ocorre entre pessoas, e que pode levar à agressão verbal, agressão física e, no ambiente do trabalho, evoluir para o assédio moral. No nosso campo de trabalho, a saúde do trabalhador, são muito comuns no ambiente de trabalho os conflitos interpessoais, conflitos entre colegas de trabalho, por diversos motivos, principalmente os conflitos de opinião. É o conflito interpessoal, conflito entre duas ou mais pessoas. Se somos seres do conflito, tanto ontogenicamente (o indivíduo) como filogeneticamente (a espécie humana), o que diremos nos conflitos que acontecem no trabalho? E o que dizer do serviço público, onde concursados de diferentes idades, formação cultural, religião, gênero, devem trabalhar juntos e conviver entre si por anos e anos?  Só vendo o outro ao mesmo tempo como meu semelhante, mas respeitando sua alteridade, suas diferenças, características da subjetividade humana e praticando a tolerância, podemos sobreviver enquanto espécie.
Por isso, é importante que saibamos que os conflitos interpessoais no trabalho são normais, pois o conflito é explícito, diferente do assédio moral que é feito de forma oculta. Dejours, fundador da psicodinâmica do trabalho, a qual analisa a relação de prazer e sofrimento no trabalho, afirma que o conflito é positivo, quando explicitado, debatido e que as partes envolvidas aceitem o que vai ser melhor para o trabalho a partir da análise do conflito e propostas de solução. O mesmo não pode ser dito do assédio moral, pois há uma intenção de prejudicar, com atos, gestos e palavras direcionadas contra uma pessoa, atos e palavras feitas de forma dissimulada, ambígua, gerando dúvidas na autoestima e na capacidade laboral do assediado. Importante no assédio moral é como o modelo de gestão e a organização do trabalho são componentes deste processo. Um modelo de gestão que pregue a competitividade e o individualismo transforma colegas em adversários, e muitas vezes vale tudo para ter uma promoção ou um cargo ou função comissionada. Sempre é bom lembrar o que é assédio moral: “e? uma conduta abusiva, intencional, frequente e repetida, que ocorre no ambiente de trabalho, e que visa diminuir, vexar, constranger, desqualificar e demolir psiquicamente um indivíduo ou um grupo, degradando as condições de trabalho, atingindo sua dignidade e colocando em risco sua integridade pessoal e profissional” (Freitas, Heloani, Barreto – 2008). Quando lutamos contra o assédio moral, trabalhamos com a prevenção e com um processo educativo no qual é importante lidar com conflitos, respeitando o outro, para também ser respeitado. Queremos dar visibilidade a este inimigo invisível no ambiente no trabalho, combater o psicoterror, a gestão por stress, e a organização de trabalho que favorece o adoecimento dos trabalhadores, seja por permitir ou não coibir o assédio moral, esta é uma luta política do SITRAEMG, através do DSTCAM, que  oferece ao sindicalizado atendimento psicológico e jurídico para enfrentar as adversidades no trabalho.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

A importância das pausas na jornada de trabalho


Por Arthur Lobato, responsável técnico pelo Departamento de Saúde do Trabalhador e Combate ao Assédio Moral (DSTCAM) do SITRAEMG

A política de prevenção à saúde do servidor e magistrado do Judiciário Federal em Minas está em mais uma etapa de sua consolidação no Estado – a criação dos comitês regionais que vão elaborar políticas de prevenção à saúde de servidores e magistrados, buscando diminuir o número de adoecimentos na instituição. O SITRAEMG participa do Comitê Gestor do TRT-MG e participou da primeira reunião do Comitê Gestor do TRE. Na Justiça Federal de Minas, o Comitê Gestor Local foi criado em Brasília, sede do Tribunal Regional Federal 1ª Região-TRF1, que tem Minas Gerais sob sua jurisdição.
O Departamento de Saúde e Combate ao Assédio Moral do SITRAEMG tem proposto algumas parcerias com a direção local, buscando, assim, unificar esforços para que as orientações e benefícios sejam para os servidores de todos os tribunais. Esses comitês são fruto da Resolução 207/15, do CNJ, que institui a Política de Atenção Integral à Saúde do Servidor e Magistrado (PAISSM). O trabalho realizado pelo Departamento de Saúde do Trabalhador e Combate ao Assedio Moral (DSTCAM) do SITRAEMG entra neste processo como uma interface em prol da saúde dos servidores. Confluência de saberes, esta é a nossa proposta, o saber institucional e o saber do trabalhador em busca de soluções preventivas em prol da saúde do servidor e servidora.
O SITRAEMG encampa a saúde enquanto luta política, focando o combate ao assédio moral, em defesa do resgate da honra, da dignidade e da saúde do assediado. Em pouco mais de 1 ano e meio, o DSTCAM participou de oito encontros regionais, em diversas comarcas de Minas. Levamos a discussão sobre o assédio moral através de palestras, debates, rodas de conversa. Participamos de seminários e congressos cuja temática é a saúde do trabalhador. Estivemos na caravana rumo a Brasília, protestando, debatendo, ouvindo a categoria, ficamos juntos no sol do planalto central, ao som das vuvuzelas, até o anoitecer. Também foram realizadas rodas de conversa em Belo Horizonte e atendimentos individuais psicológicos, focando a clínica do trabalho, além da  análise de casos enviados por e-mail. Para maior informação da categoria sobre a temática saúde do trabalhador, publicamos artigos, impressos, temos um link no site do SITRAEMG com mais informações e participação do servidor ou servidora. Para não conflitar com uma série de eventos que serão realizados pelos tribunais federais em prol da saúde do servidor, o SITRAEMG realizará um seminário sobre saúde do trabalhador, nos dia 4 e 5 de novembro, na sede do Sindicato. Estas são algumas de nossas ações em prol da saúde como prevenção. além disso, o SITRAEMG oferece uma série de convênios de saúde e de lazer para os servidores.
Nosso projeto é elaborado, pensado e estratégias de ação são realizadas, focando a temática saúde do trabalhador com ações a partir do saber e da demanda dos trabalhadores do judiciário federal, afinal, são vocês que fazem o serviço e as contribuições para os comitês gestores dos tribunais devem passar pelo olhar do trabalhador, aquele que executa o serviço, e que pode apresentar soluções práticas em prol da prevenção da saúde, visando diminuir o estresse, melhorar os relacionamentos interpessoais, criando um ambiente de trabalho saudável.
Agora vamos analisar o porquê da necessidade de uma política de prevenção, e como pequenas atitudes podem diminuir o desgaste mental e físico causados pelo trabalho.
O comitê gestor do TRT foi o primeiro a ser criado em Minas. Portanto, é o que se encontra mais adiantado, tanto em reuniões como em ações. Foi publicado, em parceria com o SITRAEMG, um folheto do TRT-MG sobre o Comitê Gestor Local de Atenção Integral à Saúde dos servidores e magistrados do Tribunal. Pretendemos disponibilizá-lo no nosso site, pois apresenta duas páginas que são importantes para todos os servidores e magistrados — as ilustrações, passo a passo —, para uma boa postura e a importância das pausas na digitação por 10 minutos para cada 50 minutos trabalhados, além de ressaltar a necessidade do alongamento e de mudar de posição. O próprio TRT tem a Instrução Normativa nº 10, de 19/10/2012, focando as pausas tanto na digitação quanto no uso do processo eletrônico judicial. Mas, será que em um tribunal que possui a instrução normativa, estas medidas em prol da prevenção da saúde são cumpridas?
Diversos estudos e pesquisas apontam para a necessidade de parar a digitação por 10 minutos a cada 50 minutos. No entanto, o trabalhador faz isso? A resposta é não. Por quê? Um dos motivos é que os métodos gerenciais atuais querem transformar o ser humano em uma máquina. Se o servidor para, interrompe seu trabalho para fazer as pausas, as próprias chefias não apoiam esta atitude que é de prevenção ao adoecimento e diminuição do desgaste psíquico, o que vai, inclusive, aumentar a produtividade.
A ginástica laboral também não é bem aceita por chefias que acham que esta atividade não é necessária e que atrapalha o andamento do trabalho, como se as pessoas fizessem ginástica laboral para fugir do trabalho, quando, na realidade a ginástica laboral auxilia o trabalhador, evita seu afastamento como consequência do excesso de atividades sem pausas.
Com relação a ficar em frente a um monitor de computador, as pesquisas apontam para a necessidade de tirar o foco da tela a cada 50 minutos, olhar para longe, para que o nervo ótico não fique irritado ou com ardência, nem com a vista “embaralhada”, sem foco no que está escrito na tela do computador. A recomendação é sair de frente da tela do computador e olhar para objetos a longa distância, inclusive olhar pela janela. Seria uma “ginástica” para o globo ocular, mas, se o trabalhador faz isso, a chefia já chega repreendendo, sem perceber que essas pequenas atitudes são em prol  da prevenção da saúde deste servidor, o que vai diminuir o absenteísmo e aumentar a produtividade.
Segundo Edith Seligmann-Silva, pesquisadora, médica com doutorado em medicina preventiva pela USP , “a carga de trabalho representa o conjunto de esforços desenvolvidos para atender às exigências das tarefas. Este conceito abrange os esforços físicos e os mentais, que por sua vez compreendem os cognitivos e os psicoafetivos (mobilização de sentimentos, controle emocional). Estes últimos constituem a carga psíquica.” O desgaste mental acontece quando a carga psíquica é maior que a capacidade do trabalhador executar sua (sobre)carga de trabalho. Para a autora, “Os componentes da carga psíquica podem ser constituídos pelos mais variados sentimentos — medo, repugnância, raiva, vergonha, ou resultam ainda do sentimento de impotência e/ou fracasso na realização das próprias expectativas de desempenho”.
Alertamos, portanto,  que o desgaste mental causado pela sobrecarga de trabalho, a ausência de pausas na digitação e a necessidade de deslocar o olhar do computador de tempos em tempos é uma NECESSIDADE, e, que a estas pequenas atitudes são uma forma de prevenir a saúde do servidor e diminuir o adoecimento e consequentemente o absenteísmo, ou seja, ausência do trabalho por motivo de saúde, o que gera  por outro lado uma sobrecarga de trabalho para o grupo, pois não há substituições, logo o serviço será feito por quem está trabalhando.
Num momento de possíveis perdas de direitos conquistados com muita luta, que os servidores do judiciário federal vivenciam, cuidar de sua saúde é um dever, mas também uma ação política dentro da organização do trabalho, sensibilizando colegas e chefias da necessidade dessas atitudes. Para isso, cada servidor deve ser ousado e procurar o Sindicato, como base de apoio. No trabalho, exercer seu direito às pausas, pois os gestores devem entender que essa pequena atitude é benéfica ao servidor e tem relação direta com a produtividade e com a prevenção de doenças do trabalhador. As pausas são um pequeno exemplo de como é importante a mudança na organização do trabalho, humanizando as relações, melhorando assim o clima organizacional. Entretanto, sem a participação dos servidores, chefias e magistrados neste processo, o adoecer no Judiciário tomará índices ainda mais alarmantes, e com o servidor adoecido, não existe produtividade, celeridade ou cumprimento de metas.
Pelo direito de trabalhar sem adoecer, esta é uma luta que começa com a prevenção, com atitudes pequenas como as relatadas acima, mas que devem ser respeitadas e apoiadas pelas chefias e pela instituição.
Arthur Lobato é psicólogo/saúde do trabalhador, responsável pelo Departamento de Saúde do Trabalhador e Combate ao Assédio Moral (DSTCAM) do SITRAEMG.