quarta-feira, 7 de junho de 2017

O TRABALHO LIBERTA?

SEXTA-FEIRA, 26/05/17 Arthur lobato, psicólogo

Começo citando a frase que estava no portão de Auschwitz — as fábricas da morte do regime nazista —, sempre em busca de mais produtividade e metas, ou seja, matar mais rápido e em maior número judeus e quem era contra o regime nazista. O racionalismo é aliado da busca tecnológica por mais “produtividade”,  como o gás Zyklon-B fabricado por uma das maiores indústrias químicas alemãs que existe até hoje.
Quando os prisioneiros entravam nos campos de concentração eram iludidos que ali teriam trabalho e condições de vida e que o trabalho seria sua redenção. Uma mentira tão grande como o banho obrigatório para os mais velhos e doentes, onde em vez de água saía o gás mortal, que exterminava em minutos.
É um modelo de exploração sobre a força de trabalho que o capitalismo pós segunda guerra utilizou, assim como a propaganda nazista, modelo para o domínio dos meios de comunicação sobre corações e mentes de várias gerações.
Racionalismo científico, produtividade, bater metas com o uso de tecnologia, essa foi a principal herança do modelo nazista de produção para o capitalismo. Sim, o trabalho  libertou da vida o escravo, mas com sua morte.
Aliás, os nazistas inventaram várias modalidades de trabalho tendo como premissa o trabalho escravo, usando trabalhadores dos países conquistados para trabalhar até a exaustão, até a morte, em atividades perigosas e insalubres. Toda a energia física, mental e emocional era sugada pelo modo de produção nazista.
Hoje o capitalismo, através do projeto neoliberal, vai explorando corpos e mentes até a exaustão, mesmo sabendo que o adoecer não é uma fraqueza do sujeito mas um efeito do modo de produção que vivemos hoje, por exemplo, quando o trabalho assume o lugar central de nossas vidas. Antes trabalhávamos para viver, hoje vivemos para trabalhar e coitado do adoecido e do desempregado pois eles são excluídos do processo produtivo e a culpa é jogada nele, e não no modelo como se organizou o trabalho após a segunda guerra mundial.
Se os nazistas usavam a força de trabalho até a morte, hoje o capitalismo com seu discurso neoliberal usa a força de trabalho humano até a exaustão, até o adoecimento, e o assédio moral é um  modelo de gestão adoecedor,  que tira toda a energia física, psíquica e emocional do trabalhador, que adoecido é descartado e com a culpa introjetada de ser um fraco,  de não ter dado conta de se superar diariamente na produtividade que é a exploração da mais valia do trabalhador e dos coletivos do trabalho.
Edith Seligmann-Silva, psiquiatra doutora em medicina afirma que  “ O assédio moral em casos de pessoas adoecidas, menos produtivas, pode ocorrer devido a reabilitação inadequada que pode levar, inclusive ao assédio grupal, com a participação de colegas, o que pode ser explicado pelo sentimento de que a  pessoa, por produzir menos, sobrecarrega os demais, que podem, de fato, sentir-se sobrecarregados. É uma situação na qual na verdade, quem adoeceu deveria ser reabilitado em uma função adequada a suas outras capacidades.”
Quando a política de metas e produtividade é lançada como um furacão no serviço público, não se estuda o que aconteceu quando este modelo foi implementado nas privatizações dos bancos estaduais, com o alto índice de adoecimento dos bancários e elevado suicídios no ambiente de trabalho. Esconde-se os efeitos deste modelo, para elogiar o “sucesso” do aumento da produtividade.
Por isso, o discurso  que a previdência é deficitária e tem que mudar, que terceirização, que chegará ao serviço público, é boa, por isso necessária, e outras mentiras que vemos, ouvimos e lemos diariamente nos jornais, rádio e TV, afinal a mentira repetida mil vezes vira verdade, já afirmava o ministro da propaganda nazista Goebbels.
Cabe aos sindicatos, no nosso caso o SINJUS-MG, ser o nosso “Bunker” contra estas reformas neoliberais, diria mais, nazistas,  contra todo o povo brasileiro. Somente nossa união, sair às ruas, conscientizar amigos, filhos e desconhecidos, de que enfrentamos o massacre  do capital contra nós trabalhadores, aposentados e desempregados. Pois, se não lutarmos contra o mal ele dominará e destruirá o que ainda resta de humanidade neste planeta.
(Esta análise continua no próximo mês)


PUBLICADO EM: http://sinjus.org.br/o-trabalho-liberta/



Arthur Lobato

É psicólogo da área de saúde do trabalhador. Integra a equipe da Comissão de Assédio Moral do SINJUS-MG. Participou de Congressos Internacionais sobre o tema no Brasil, Argentina e México. Sócio colaborador da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT).

quarta-feira, 24 de maio de 2017

O esgotamento profissional: o “burn-out“ segundo Dostoiewisk


Por Arthur Lobato* 
Fiedor Dostoiewisk é considerado o pai do romance psicológico, pois seus personagens agem, pensam, refletem, confrontado o ato com  a consciência moral que atormenta os personagens evidenciando seu mundo mental. Isso fica nítido em uma de suas maiores obras — Crime e Castigo. Mas, quero falar de um conto praticamente desconhecido deste autor que considero o primeiro caso de burn-out (esgotamento profissional) relatado em texto, e isto   em 1875.
No conto “Um Coração Fraco”, uma primeira localização do sintoma patológico: o coração é o centro da paixão, da loucura, mas hoje em dia com os transplantes cardíacos, a medicina provou que troca-se o coração mas não as emoções. A neurociência localiza no cérebro a fonte das emoções atuando com medicamentos que alteram a bioquímica das conexões sinápticas. Assim, o cérebro e  não mais o coração é o alvo tanto dos medicamentos quanto do sofrimento mental. Quando se transplantou o coração e não veio junto a paixão do doador, ficou cientificamente impossível continuar com a ideia romântica do cérebro como razão e o coração enquanto emoção.
O personagem Vássia trabalha no serviço público do império russo, cargo de grande  honra e vitalício. Para  ser servidor público no império russo, tem de ter boa letra, conhecimento de gramática e ser rápido nas cópias que devem ser perfeitas, sem borrão no papel, já que na época se escrevia com tinta e pena de animais, daí  a importância da forma sobre o conteúdo. São os copistas, os amanuenses, e já que o serviço público remonta a Roma, esse serviço burocrático continua sendo a base  do controle do estado sobre cidadãos, consolidando um ordenamento jurídico, comercial e administrativo, que vale para todo o império russo, daí a importância do documento (processo físico). Por isso a cópia tem de ser perfeita, sem erros e o trabalho tem de ser célere. Parece bem atual: celeridade no trabalho e sem erros.
Hoje com o computador tudo parece mais fácil, mas os desafios do serviço público são os mesmos: registrar, documentar, carimbar ou usar o certificado digital, tanto faz, o importante é que o conteúdo do documento oficial, seja impresso ou virtual,  é o que valida as ações jurídicas e administrativas. Se antes era a pena e o tinteiro o instrumento de trabalho, depois vieram as máquinas de datilografar e posteriormente, o computador. Muda a tecnologia mas o trabalho do servidor público é o mesmo, e se antes copiava-se documentos, hoje eles são impressos ou escaneados, e, mesmo o processo virtual continua a  existir  enquanto  processo físico a partir do momento que ele é impresso, carimbado e registrado, portanto, ainda sobrevive no papel, o documento oficial.
As transformações do mundo do trabalho afetam o judiciário brasileiro, pois com a evolução da informática há uma mudança de paradigma: transformar o processo físico em um elemento da nuvem digital, de forma que seu acesso seja  compartilhado por advogados,  reclamantes e acusados  através de uma nova plataforma tecnológica onde os processos existirão de forma virtual, extinguindo os processo físicos, afinal, esta é a meta. Embora os processos físicos sofram o desgaste do tempo, da umidade, das traças, continuam existindo. E o processo virtual?  É acreditar na infalibilidade dos provedores e da nuvem da internet, onde tudo existe, mas ao mesmo tempo nada existe, pois é virtual.
Claro que se pode imprimir, mas o papel deixou de ser o suporte, agora o que vale é o documento eletrônico. Esta é a revolução que vivemos no serviço público.  A  tecnologia da máquina de escrever e depois da máquina elétrica, agilizaram o serviço, pois a caligrafia deixou de ser requisito para o trabalho, e o que é exigido agora é a  agilidade da digitação, sem erros,  isso  é o que conta. Depois vieram as máquinas eletrônicas e por fim o computador acelerando ainda mais o ritmo do trabalho e junto com as novas tecnologias, novas doenças como as “Lesões por Esforços Repetitivos (LER) e “Distúrbios Osteo musculares” (DORT).
Há alguns anos a meta era digitalizar os processos antigos, mas a evolução da informática e da internet praticamente eliminaram a digitalização, meio termo entre o processo físico e o eletrônico, agora o que vale é o processo eletrônico, os quais têm acesso de qualquer lugar, por qualquer plataforma (computador, smartphone, notebook, tablet etc.). Basta estar “conectado”. O suporte tecnológico é virtual e com ele exige-se mais agilidade e celeridade como se em vez de pensar, o recortar e colar fosse a forma de agilizar o serviço. Em vez de pensar, recortar e colar.  Mas a partir de qual jurisprudência? Será que cada caso pode ser classificado como igual a outro?
Aceleramos o processo de trabalho, em busca de uma aparente produtividade, mas perdemos a análise do caso a caso. Em vez do papel existe a tela do computador e com ela as novas doenças no mundo do trabalho. As LER/DORT foram as primeiras consequências da aceleração do ritmo dos digitadores sobre o corpo dos trabalhadores  já que em busca de produtividade não há tempo para pausas, o olho fica vermelho, irritado, pois em frente a tela do computador nossa visão vai sofrendo os impactos de estar em frente a um monitor  várias horas, cansando a vista, embaralhando as letras, e, depois de muitas horas em frente ao computador a capacidade de raciocínio já não é a mesma. Assim, além dos impactos do trabalho sobre o corpo, afetando o  sistema oste omuscular temos o cansaço do nervo ótico.
Edith Seligmann Silva, psiquiatra, professora do Departamento de Medicina Preventiva da Universidade de São Paulo desenvolve sistematicamente pesquisas e estudos sobre a questão da saúde mental no trabalho. Ela conclui que: “nos atuais processos de precarização, com respeito aos impactos na saúde mental, podemos destacar os seguintes aspectos e mecanismos: intensificação do trabalho, associado muitas vezes ao prolongamento de jornadas, aumento das cargas de trabalho, especialmente das cargas de  trabalho mental (inteligência + esfera  dos afetos), com advento de níveis crescentes de fadiga geral e mental,  os quais podem culminar em esgotamento profissional (burn-out) ou outros agravos.
A maior exigência mental/cerebral no trabalho,  faz com que o estresse e os erros sejam maiores, afinal, não somos maquinas ou suporte eletrônico, somos humanos. Mas isso não importa, quem não se adaptar à tecnologia esta fora do mundo do trabalho, seja um porteiro, uma secretária, um servidor ou um magistrado. Para isso, a revolução tecnológica colaborou quando a internet deixou a comunidade militar e científica, para ser de domínio  público. A aceleração da banda alarga, a nano tecnologia e a comunicação via satélite  possibilitaram maior rapidez na comunicação e principalmente o acesso a todas as camadas da população ao PC e ao smartphone, objetos de uso e de consumo que hoje são tão comuns no lar e no trabalho como a Tv e a geladeira foram na década de 60.
Estamos falando de mudanças de paradigma. Os trabalhadores mais velhos (analógicos) são ultrapassados pelos mais novos, que já nascem na era digital, portanto, dominam o mundo virtual. O aprendizado de uma criança já tem o componente virtual em sua formação como ser humano. Câmeras vigiam bebês à distancia e vigiam o adulto no trabalho. Crianças usam o smartphone para ouvir músicas, ver vídeos e acessar conteúdo de estudo. Tudo é muito  rápido, é muita informação. O lazer e o trabalho se misturam com as novas mídias, pois o tempo do homem e  da mulher é perpassado pelo trabalho, seja através de e-mails, whatsapp, mensagem de texto, ordens urgentes de serviço que deve ser feito imediatamente, seja noite, folga, ou feriado. E assim, a vida privada é invadida pelo mundo do trabalho, como diria a propaganda de um banco: “Incansáveis”, assim temos de ser no trabalho, ou o lema de uma Tv “sempre ligado, 24 horas com você”. Mas a consequência deste mundo do trabalho é o adoecer do trabalhador.
O trabalho torna-se a essência da vida, e, conseguir e manter o emprego é nossa necessidade básica pois o desemprego esta cada vez maior, mantendo o exercito de reserva de mão de obra. O desemprego nos ameaça diariamente, daí a procura pelo serviço público e seu grande diferencial: a estabilidade no emprego. Assim, quem está desempregado aceita valores salariais inferiores ao que ganhava, e quem trabalha tem de ser cada vez mais produtivo. O serviço público incorporou estas modalidades de produtividade e metas da iniciativa privada e quer que os servidores e magistrados tenham que produzir cada vez mais, dentro de uma  lógica toyotista, onde os problemas da empresa ou instituição são “meus” problemas enquanto trabalhador, e portanto, cabe a mim resolve-los.
Outra grande mudança de paradigma com a informática enquanto suporte ao trabalho produtivo é o Home office ou trabalho à distância. Agora não é preciso uma firma, escritório, computador, mesa, cadeira para exercer meu trabalho, dentro de uma jornada de trabalho controlada pelo ponto eletrônico, que registra  a entrada e a saída do ambiente de trabalho. Agora a oportunidade e novidade para os trabalhadores é trabalhar em casa (home office), sem jornada, mas o trabalho é medido pela produtividade, com o escritório (mesa, cadeiras, computador, internet) montado pelo trabalhador. Começou com  a terceirização do tele atendimento, agora é uma realidade em muitas profissões.
Este é o mundo do trabalho em  que vivenciamos, uma grande mudança de paradigma – trabalho por jornada, para trabalho medido pela produtividade—, com as “flexibilizações” que significam a perda dos direitos trabalhistas conquistados com muita luta. Trabalhar em casa parece novo, mas na realidade é um canto de sereia, conforme análises críticas ao teletrabalho, já publicadas no site do Sitraemg,  pois, a invasão do espaço privado pelo trabalho, gera transtornos e conflitos, o ato de trabalhar deixa de ser um momento da vida, para nossa vida ser o trabalho em tempo integral, como no conto de Dostoiewisk, “Um coração fraco.”
É interessante notar que há mais de 100 anos o russo Fiódor Mikailovitch Dostoiéviski (1821/1881) já denunciava os aspectos negativos  de se trabalhar em casa, pois indo à uma repartição, mesmo que você não queira, tem que trabalhar, tem que fazer o serviço, pois há chefias, controle vigilância e punição, além de exigência de produtividade, cumprimento de metas, etc., mas esta pressão termina com o final da jornada, quando saimos do trabalho enquanto espaço físico. Entretanto  em casa você vira seu chefe, internalizando o chefe externo, já agora você é chefe de si mesmo, fortalecendo o super ego, e a psicanálise revelou como o superego é severo com o ego, um dos motivos da cisão neurótica do sujeito.
No conto “Um coração fraco”, Dostoiewisky narra o drama de  de um escriturário, um servidor público russo no império do TZAR, que em caso de desídia, pode ser até fuzilado, pois o serviço público, registrando e mantendo guardando processos e documentos é a base da burocracia e do controle do estado sobre os cidadãos. Fazer parte do serviço público do império russo é uma honra, e as promoções vão depender da produtividade, da caligrafia perfeita, que não pode ser demorada, mas precisa, afinal não existia xerox, somente cópias manuais de documentos — o trabalho do caligrafo, do amanuense.
No livro o personagem principal inicia o conto muito feliz confraternizando com um amigo, pois ficou noivo e queria comemorar. Mas toda a alegria do personagem logo cai por terra, quando ele confessa ao amigo, depois de dias de festa e alegria, já que é véspera de natal e ano novo, que trouxe trabalho da repartição, recomendado pela chefia para ser concluído no período de festas natalinas, quando repartição esta fechada. O personagem recém promovido, quer mostrar serviço e assume o compromisso. Entretanto a vida, o amor interfere no seu trabalho mecânico de copista, pois ele conhece uma mulher, se apaixona, fica noivo comemora com o amigo e quando percebe vários dias se passaram. Agora, em casa a alegria da lugar à ansiedade, medo e a preocupação, afinal o serviço esta atrasado, e mesmo sendo natal e ano novo a tarefa deve ser cumprida, pois é seu compromisso com a chefia, com seu cargo,  e consigo mesmo.
Entretanto, o personagem sentado na mesa de trabalho em sua casa não consegue se concentrar, tantas são a emoções vividas nestes últimos dias. Mas para casar deve manter o emprego e para manter o emprego deve cumprir a tarefa, e ela esta muito atrasada. Como se concentrar em um serviço monótono, meticuloso, se sua mente e seu coração só pensa no amor e na amada Lisanka.
Surge o primeiro bloqueio: falta de concentração em casa para executar a tarefa. Os pensamentos estão focados na emoção do amor, e ele fica horas na mesa sem conseguir começar o trabalho. O medo da punição gera angústia e ansiedade, e ele em um esforço sobre humano tenta realizar a tarefa, lutando contra suas emoções e pensamentos amorosos. Começa a copiar os documentos sem parar, sem errar, sem dormir ou se alimentar.
Seu amigo, Arkaddi, o visita e fica preocupado com seu estado, pois há dias ele não dorme, não se alimenta, e mesmo assim o trabalho não rende. Ele fica preocupado, mas não consegue demover o amigo de fazer uma pausa, este continua de forma frenética a escrever, copiando páginas e mais páginas, de forma automática, “a pena desliza”, diz o autor, mas o trabalho não acaba. Dias e noites se passam, a noiva se preocupa, o amigo também, mas nada faz Vássia sair do ritmo de trabalho que ele se impôs para conseguir executar a tarefa, mesmo sendo natal e ano novo, que passam sem que o personagem saia de casa.
Esta exigência consigo mesmo traz conseqüências. É visível seu transtorno, mas ele continua copiando e trabalhando sem cessar. Então, quando o amigo resolve intervir dizendo que o trabalho esta quase terminado, ele se desespera e mostra uma pilha de documentos que ainda tem de copiar. Estafado sem dormir e comer ele se angustia e pensa nas conseqüências de não executar a tarefa, pois até ser fuzilado por motivo de desídia está contido como sentença, no estatuto do serviço público russo. E o medo, a preocupação e a responsabilidade são mais fortes que os apelos do amigo ou necessidade de descanso, afinal, a prioridade é o trabalho.
É  um caso que hoje chamaríamos de burn-out –  “(…) um estado de esgotamento físico e mental cuja causa está intimamente ligada à vida profissional” —, mas há um contexto psicológico ligado ao trabalho: o medo da punição é maior  que a angústia de não dar conta. E, de tanto trabalhar enlouquece, se dirige ao chefe em sua casa no início do ano novo para ser punido, pois esta esgotado, e não deu conta da tarefa. Este servidor que era um funcionário modelo, tranquilo, se apresenta  ao chefe em tal estado de agitação e desespero, imundo, com uma barba mal cuidada, com uma fala desconexa, e tão angustiado chora e pede perdão por sua “incapacidade”  de dar conta do serviço.  Um médico é chamado e constata que ele enlouqueceu. Nesta época não havia o estudo mais aprofundado do estresse laboral tampouco do “burn-out” ou licença por transtornos mentais, somente a divisão SANIDADE E LOUCURA. 
Para Vássia, funcionário público do Império russo na época do tzarismo, a loucura pelo excesso do trabalho e o conflito entre suas emoções e a obrigação laboral, o levam à exaustão e à loucura, era o fim de uma vida dedicada ao trabalho, e mesmo assim ele se culpa de não ter dado conta de realizar a tarefa. O hospício é seu destino, a saída da loucura do trabalho é enlouquecer de verdade. No final do conto a frase cruel e dúbia do chefe:” afinal nem era tão urgente….”.
Fica a dúvida: não era mesmo urgente ou foi imposto à Vássia como urgente, ou foi  ele quem introjetou a urgência por conta própria?

* Arthur Lobato é psicólogo, responsável técnico pelo Departamento de Saúde do Trabalhador e Combate ao Assédio Moral (DSTCAM) do SITRAEMG e coordenador da Comissão de Combate ao Assédio Moral do Sinjus e do Serjusmig.

terça-feira, 23 de maio de 2017

Assédio moral é tema de mesa-redonda


Foi realizada na sexta-feira (12) mesa-redonda sobre assédio moral promovida pelo Comitê Gestor de Saúde do TRT com apoio do Sitraemg. O evento ocorreu à tarde no plenário 2 do edifício sede.

Participaram da atividade, na mesa, a coordenadora do Comitê Gestor, desembargadora Denise Alves Horta, a  desembargadora Rosemary de Oliveira Pires, os juízes do TRT-MG Cláudio Roberto Carneiro de Castro e Rodrigo Bueno, o secretário de saúde do Tribunal, psiquiatra Geraldo Mendes Diniz, e o psicólogo do Sitraemg, Arthur Lobato. Também estiveram presentes o presidente do Tribunal, desembargador Júlio Bernardo do Carmo, o 2º vice presidente, Luiz Ronan Neves Koury, e o desembargador Emerson José Alves Lage.

A atividade foi aberta pela desembargadora Denise Alves Horta. Após falar da satisfação em receber os presentes, a coordenadora do Comitê Gestor de Saúde comentou que o assédio moral é um problema presente em diferentes âmbitos sociais (trabalho, família, escola) que surge como consequência da pressão social pelo enquadramento em determinados estereótipos. No trabalho, pode decorrer da cobrança excessiva por resultados, segundo a desembargadora. Ela qualificou o assédio como "vilão serial, insidioso, que ataca a morada permanente da pessoa humana - a sua dignidade". De acordo com a magistrada, a dinâmica de um sistema não pode esquecer que o mais importante é gerir satisfatoriamente o bem comum.

O secretário de saúde da instituição relatou, em sua primeira fala, quais os problemas de saúde decorrentes do assédio e das condições de vida estressantes da atualidade. Ele discorreu sobre diversas reações comportamentais. Falou que não adianta apenas tirar o trabalhador que sofre assédio do seu local de trabalho, mas que, em muitos casos, se ele não é afastado preventivamente por um período, as consequências podem ser muito mais graves.

Ao retomar a palavra como último orador, Geraldo Mendes Diniz discorreu sobre o que vem sendo feito no Tribunal para combater o problema. Segundo o psiquiatra, o sofrimento psíquico provocado por trabalho no TRT-MG é uma exceção, mas, enquanto houver uma única pessoa submetida a assédio, é necessário estar atento a essa realidade. "Por motivo nenhum, a dignidade de um ser humano tem que ser atacada", opinou.

Entre as ações da instituição, o secretário destacou a formação para servidores e gestores. Além disso, enfatizou, a Secretaria de Saúde tem uma política para identificar situações de sofrimento a partir da análise de absenteísmo dos setores, de sintomas identificados em consultas médicas e odontológicas e do exame periódico. A partir do momento em que o problema é detectado ou que a vítima do problema procura o setor de saúde, há acompanhamento do trabalhador e da unidade. Ele também falou do Código de Ética, que coíbe a prática do assédio moral. "Nós temos a melhor área de saúde de todos os tribunais do Poder Judiciário brasileiro", avalizou o gestor.

O juiz trabalhista Cláudio Roberto Carneiro de Castro, mestre em direito do trabalho e autor do livro "Assédio Moral em Relação de Emprego", considera que a introdução do conceito de assédio moral, ainda impreciso no Direito, permitiu que as vítimas passassem a compreender melhor o que acontece com elas e possibilitou que houvesse maior proteção.

Ele avaliou diferentes elementos presentes na doutrina e na jurisprudência para definir o assédio: o dano; o dolo; a repetição, sistematização e duração; o contexto laboral; a intensidade da violência; e o fato de se caracterizar como conduta não desejada pela vítima. Os três primeiros foram criticados pelo magistrado. Para ele, o dano moral a ser considerado é aquele provocado à personalidade do trabalhador e à dignidade do ser humano, outras consequências à saúde física ou psicológica dependem de maior ou menor resistência da vítima e não podem ser considerados como essenciais. O dolo, segundo ele, não deve ser considerado, pois envolve aspectos altamente subjetivos, muito difíceis de provar. Não é possível definir uma repetição ou duração mínima de forma arbitrária para caracterizar o assédio, de acordo com o palestrante, pois outros elementos, como a intensidade e o contexto, podem ser mais relevantes. O magistrado também falou sobre situações em que, segundo a teoria moderna do Direito e o novo CPC, há inversão do ônus da prova.

Ao abordar o tema de forma mais prática, o juiz Rodrigo Bueno falou do contexto de muitas empresas em que há cobrança de metas e humilhação para quem não as cumpre, citando caso de estabelecimento que distribui "troféu abacaxi". Mas há casos, segundo o magistrado, em que o assédio é mais sutil, com a transferência do local de trabalho como forma de isolar o assediado.
O atestado médico é, muitas vezes, o único mecanismo que o assediado tem para fugir da violência e afastar-se, mas isso não resolve o problema, pois existe o momento de retorno ao trabalho, avalia o palestrante.

De acordo com Ricardo Bueno, a prova, essência do processo, é muito complexa para o magistrado. "Muitas vezes o assédio moral não é realizado na frente de todo mundo, e o assediador tenta isolar o assediado da prova", diz ele. Por isso, não pode ser desprezada a prova indiciária, opinou. Para ele, o assédio caracteriza-se, via de regra, quando há repetição, e não numa situação isolada.

O psicólogo do Sitraemg falou da importância do respeito ao próximo, levando em consideração que cada um de nós é diferente e que a não aceitação das diferenças é uma das causas do assédio. Ele afirmou que, hoje, o problema do assédio moral está totalmente ligado ao projeto neoliberal e ao movimento de retorno rumo à realidade pós-revolução industrial, quando as jornadas eram de 18 horas e havia trabalho infantil. Segundo Arthur Lobato, o conceito de mobbing surgiu com o psiquiatra Heinz Leymann a partir do estudo da rivalidade entre grupos de trabalhadores da Suécia gerada pelo método de organização do trabalho conhecido como "toyotismo".

O representante do sindicato relacionou o assédio moral a contextos que provocam mais de três mil acidentes de trabalho no Brasil, de acordo com números que não abrangem terceirizados, servidores públicos, microempresários e informais. Para ele, o alvo atual no Brasil é o serviço público. Enquanto o trabalhador que fabrica um carro pode ver o produto do seu trabalho realizado, um serviço que não tem fim, como no mito de Sísifo, é causa de angústia para servidores e magistrados, obrigados a se submeter a um plano de metas, apontou o palestrante.

O psicólogo opina que o assédio moral é a "ponta de lança" de atuação do movimento sindical. "Enquanto a psicologia clássica está preocupada em como produzir mais, temos que nos preocupar em como viver melhor", avalia Arthur Lobato. "Queremos viver e não ser escravos do trabalho". Entre outras sugestões, defendeu a realização de cartilhas a partir do discurso do trabalhador, lembrando que, para isso, o trabalhador precisa ter informações. Ele opinou que a causa principal é o atual modelo de organização do trabalho, que necessita mudar. (David Landau)

Informações TRT

quarta-feira, 17 de maio de 2017

SITRAEMG promove debate sobre assédio moral

O Comitê Gestor de Atenção Integral à saúde do Tribunal Regional do Trabalho (TRT) da 3ª Região, promoveu, em parceria com o SITRAEMG uma mesa de palestras e debates sobre o assédio moral no trabalho. O evento aconteceu na última sexta, 12 de maio de 2017, em um dos auditórios do prédio do TRT, na Avenida Getúlio Vargas, 225.  
Para compor a mesa, foram convidados o desembargador e presidente do TRT Júlio Bernardo do Carmo, o vice-presidente do TRT Luiz Ronan Neves Koury; a desembargadora e também coordenadora do comitê Denise Alves Horta; a desembargadora do TRT Rosemary de Oliveira Pires e os Juízes do TRT Claúdio Roberto Carneiro e Rodrigo Bueno; o secretário de saúde do TRT da 3ª Região, doutor Geraldo Mendes Diniz; e o psicólogo do SITRAEMG Arthur Lobato. 
Os desembargadores Júlio Bernardo e Luiz Ronan deram boas-vinda aos presentes e lembraram da importância de falar sobre o assunto, uma vez que todos os trabalhadores estão sujeitos a este problema. Lembraram também, que o dia Nacional de Combate ao Assédio Moral é comemorado no dia 02 de Maio.
Denise também deu suas palavras e lembrou da importância de uma mesa de debates para que os mitos e as verdades sobre o assédio moral sejam esclarecidos e para que ocorra uma troca de conhecimento.  A juíza Rosimary também falou e explanou sobre a necessidade de empatia e alteridades nas relações humanas e para entender melhor.  
Logo depois o, doutor Geraldo Mendes, abordou o o tema “Assédio moral e sofrimento psíquico”.  Durante a palestra, o secretário explicou que o trabalhador que sofre assédio pode apresentar diversos problemas, como depressão e ansiedade além de hipertensão. Além disso, Geraldo também lembrou que o TRT possui um departamento específico para cuidar de doenças relativas ao trabalho e que ele existe há 22 anos. 
O juiz Claudio Roberto Carneiro de Castro, autor do livro “O que você precisa saber sobre o assédio moral nas relações de emprego” , levantou as diversas questões jurídicas acerca do assédio e do dano moral no ambiente de trabalho. O também juiz do TRT, Rodrigo Bueno apontou que a questão do assédio envolve principalmente o problema de metas de trabalho e que muitos casos de assédio ocorrem em conversas e reuniões particulares entre trabalhadores e superiores. 
O psicólogo do Sindicato Arthur Lobato apresentou dados alarmantes: no país, acontecem, por ano, cerca de 700 mil acidentes de trabalho e problemas relacionados a doenças ocupacionais.  Lobato também deu ênfase na necessidade se mudar  a cultura organizacional que se baseia num modelo de metas altas e que o trabalho não tem fim e o quanto isso pode ser prejudicial ao ser estruturado no serviço público. 
Um pequeno intervalo foi feito, e um lanche foi servido a todos os presentes. Logo após, a mesa redonda continuou com o debate e abriu o espaço para a plateia fazer perguntas aos que estavam na mesa e para sugerir meios de se combater dentro dos ambientes de trabalho do Judiciário, o assédio moral. 
Abaixo a galeria de fotos do evento: https://www.flickr.com/photos/











quarta-feira, 10 de maio de 2017

TRT promoverá debate sobre “assédio moral no trabalho”

Evento será voltado para servidores do Tribunal; Psicólogo Arthur Lobato, responsável técnico pelo DSTCAM do SITRAEMG, participará como um dos expositores do evento.
O psicólogo Arthur Lobato, especialista em saúde do trabalhador e responsável técnico pelo Departamento de Saúde do Trabalhador e Combate ao Assédio Moral (DSTCAM) do SITRAEMG, e nessa condição integra o Comitê de Saúde do TRT da 3ª Região, participará da “Mesa redonda: assédio moral no trabalho”, que será promovida pelo TRT da 3ª Região no próximo dia 12 de maio, no plenário 2 de sua sede (Avenida Getúlio Vargas, 225), em Belo Horizonte. O evento, promovido pelo comitê gestor de saúde do TRT, criado pela resolução 207/CNJ e coordenado pela desembargadora Denise Alves Horta, será voltado exclusivamente para servidores do Tribunal.
Conforme informações da Secretaria de Comunicação Social (Secom) do TRT, o comitê de saúde já realizou um total de 11 reuniões, sendo oito no ano passado e três em 2017. O juiz Rodrigo Ribeiro Bueno, um dos expositores no debate programado para o dia 12, é o representante da 1ª Instância no comitê.
PROGRAMAÇÃO
  • 15h – Abertura: Desembargadora Denise Alves Horta
  • 15h15 – Assédio moral e sofrimento psíquico:  Psiquiatra e Secretário de Saúde Dr. Geraldo Mendes Diniz
  • 15h45 – Assédio moral e a visão do magistrado: Juiz Cláudio Roberto Carneiro de Castro e Juiz Rodrigo Ribeiro Bueno
  • 16h30 – intervalo
  • 16h40 – Formas de combate ao assédio moral: Psicólogo Arthur Lobato (Sitraemg)
  • 17h10 – O que o Tribunal tem feito: Dr. Geraldo Diniz
  • 17h20 – Debate
  • 18h – encerramento
DSTCAM DO SITRAEMG
A saúde do trabalhador do Judiciário Federal e o combate ao assédio moral nos locais de trabalho foram algumas das principais bandeiras de luta apresentadas durante a campanha que elegeu a atual diretoria executiva do SITRAEMG. Cumprindo o compromisso assumido, a diretoria levou ao X Congresso do SITRAEMG, realizado em abril de 2015, em Juiz de Fora, a proposta de criação do Departamento de Saúde do Trabalhador e Combate ao Assédio Moral (DSTCAM), que foi aprovada por unanimidade pelos participantes.
O departamento começou a funcionar em meados do mesmo ano passado, e, desde então, vem mantendo uma intensa agenda de trabalho. Além de atender os casos de adoecimento e assédio moral apresentados/denunciados pelos filiados, procurou discutir o tema com a categoria nos diversos eventos promovidos pelo Sindicato, como os encontros regionais, rodas de conversa e o Seminário do DSTCAM – promovido pela entidade em novembro do ano passado, reunindo durante dois dias, em debate em Belo Horizonte, profissionais de saúde dos mais renomados do país com experiência em saúde do trabalhador. E, graças à busca de aproximação do DSTCAM com os departamentos de saúde dos tribunais, tornou-se possível a inclusão de representante do mesmo nos comitês de saúde instituídos pelos respectivos órgãos. Melhor para os servidores do Judiciário Federal em Minas Gerais.
“Vai ser um debate muito bom e nossa preocupação é grande sobre a matéria. Inclusive, dentro dos 30 sindicatos do PJU, o SITRAEMG está sendo vanguarda no projeto contra o assédio moral no serviço público (clique AQUIe leia a matéria)”, salienta o coordenador geral do Sindicato Alexandre Magnus.

Assédio moral e o adoecer do trabalhador

Por Arthur Lobato, psicólogo, responsável técnico pelo Departamento de Saúde do Trabalhador e Combate ao Assédio Moral (DSTCAM) do SITRAEMG.
O assédio moral no trabalho é um fenômeno perverso realizado através de constantes ataques por meio de atos repetidos, persecutórios, sistematizados. A vítima sofre humilhações, tratamento diferenciado, injustiças. Essas atitudes, feitas com a intenção de prejudicar alguém, criam uma ruptura na autoestima e na motivação do trabalhador, levando ao adoecer psíquico e emocional.
Três elementos são essenciais no assédio moral: o agressor, o alvo (vítima) e o contexto que permite que o assédio aconteça (organização do trabalho). Por isso, só se altera o ambiente de trabalho se a empresa ou a instituição estiver envolvida na mudança.
Em todo assédio moral existe a discriminação e não aceitação da diferença. Mas existem diversos tipos de assédio moral no trabalho. O termo “vertical” e “horizontal” tem relação com à hierarquia.
O assédio moral vertical descendente é o mais comum. É aquele praticado pela chefia contra seu subalterno. Segundo Freitas, Heloani e Barreto trata-se do caso mais comum de expressão de abuso de poder e tirania de chefes nas estruturas muito hierarquizadas. Os chefes se sentem “deuses” impunes e estão na raiz desta ocorrência.
Já o assédio moral vertical ascendente é quando algum subordinado pratica o assédio moral contra o chefe, e é muito raro em função das relações desiguais de poder, entre chefe e subordinado. Pode ocorrer quando o subordinado tem acesso privilegiado ao seu chefe ou aos pares de seu chefe, e utiliza esse acesso para maledicências, fofocas, intrigas, injúrias.
Quando o assédio moral acontece entre colegas é chamado de assédio moral horizontal. Parte do grupo exerce o assédio contra outro grupo: mais novos contra os mais velhos; mais capacitados que almejam promoções e discriminam aqueles que consideram menos capacitados. “Os grupos tendem a nivelar os indivíduos e a não suportar as diferenças. As distinções podem servir de pretexto para desencadear agressões que aos poucos podem se tornar assédio moral”.
Freitas, Heloani e Barreto afirmam: “no nível organizacional são vários os efeitos nocivos, entre eles: o afastamento de pessoal por doenças e acidentes de trabalho, a elevação do absenteísmo, e o turn-over (rotatividade)”. Marie-France Hirigoyen, especialista no tema, denuncia também o assédio institucional, que é um instrumento de gestão do conjunto de pessoal.
Em todo assédio moral há manipulação para se adquirir poder, sendo a inveja, o ciúme e a rivalidade o combustível do assédio moral. Caso não seja impedido, pode causar danos irreversíveis à saúde do trabalhador, prejudicando o ambiente de trabalho como um todo.
Somente a prevenção, o debate, o diálogo e as mudanças na organização do trabalho podem alterar esta realidade.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

DEPARTAMENTO DE SAÚDE DO TRABALHADOR E COMBATE AO ASSÉDIO MORAL (DSTCAM) – AÇÕES DE 2015 A 2017






LINK JORNAL DSTCAM/SITRAEMG

A criação do DEPARTAMENTO DE SAÚDE DO TRABALHADOR E COMBATE AO ASSÉDIO MORAL (DSTCAM) foi concretizada no X Congresso Ordinário do SITRAEMG em abril de 2015, o qual deliberou a necessidade de lutar por saúde, trabalho digno, contra o autoritarismo, a sobrecarga de trabalho e combater o assédio moral.

O departamento foi lançado nos atos públicos em frente aos tribunais em julho de 2015, em plena greve histórica do funcionalismo público federal. Pude acompanhar o  início desta luta, participando de assembleias e atos públicos, indo a Brasília, viajando por 8 comarcas nos encontros regionais, levando a temática do assédio moral como luta política do sindicato em prol da saúde do trabalhador. Além disso, realizamos eventos como as rodas de conversa em Belo Horizonte e no interior, além do Seminário de Saúde do Trabalhador em novembro de 2016, com a participação dos maiores especialistas do Brasil na temática saúde do trabalhador e combate ao assédio moral, palestras disponibilizadas no site do sindicato. Realizei mais de 200 sessões de atendimento individual para orientação a servidores que vivenciavam mal estar no trabalho e análise de casos enviados por e mail ou por contato telefônico.

O DSTCAM realizou dezenas de reuniões semanais para deliberar ações e estratégias, publicamos 4 jornais do DSTCAM focando o combate ao assédio moral em prol da saúde do trabalhador. Foi criado um link no site do Sitraemg onde além de nossas ações foram publicados diversos artigos focando a questão do assédio moral e sua relação com o sofrimento e adoecer do trabalhador. Levamos o trabalho do Sitraemg para congressos científicos como o da ANAMT (Associação Nacional de Medicina do Trabalho), o que referenda pela comunidade científica o trabalho realizado pelo Sindicato.

Destaco também a participação do Sitraemg no Comitê Gestor de Saúde do TRE e TRT, de acordo com a resolução 207 do CNJ, e o contato permanente com a Justiça Federal que pelo fato de ser seção judiciária, tem seu comitê gestor em Brasília no TRF1.

Fizemos manifestações em frente aos tribunais, distribuindo jornais, informando sobre o assédio moral, dialogando com os servidores, especialmente, no dia 2 de maio, dia de Combate ao Assédio Moral. Fizemos intervenção em duas comarcas, envolvendo conflito entre o coletivo de trabalhadores, além de diversas reuniões no TRE, TRT, Justiça Federal sempre que demandados pelos servidores, além do acompanhamento de perícias.

Neste período de eleições, continuamos nossos trabalhos e aguardamos o resultado, que será a escolha dos servidores entre as três chapas apresentadas. 

Arthur lobato
Psicólogo/saúde do trabalhador
Responsável pelo  DSTCAM  Departamento de Saúde do Trabalhador e Combate ao Assédio Moral do SITRAEMG.


LINK JORNAL DSTCAM/SITRAEMG


Ansiedade e depressão: novos nomes para o desespero humano

Por Arthur Lobato, psicólogo/saúde do trabalhador, responsável técnico pelo Departamento de Saúde do Trabalhador e Combate ao Assédio Moral (DSTCAM) do SITRAEMG.


O filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard (Copenhague 1813-1855) escreveu uma das mais brilhantes obras sobre o desespero humano que, resumidamente, pode ser sintetizada nas seguintes frases: desespero ante ser o que não se quer ser, ou o desespero de não conseguir ser o que se quer ser.
Abordando o tema sob o olhar da psicologia, podemos ver nas teses do autor dinamarquês seu correlato com a psicologia na análise da depressão e da ansiedade. Freud tem um nome para o desespero: pulsão de morte.
A depressão, segundo a Organização Mundial da Saúde – OMS, é o grande mal que afetará milhões de pessoas no planeta no século XXI. Geralmente, a depressão está ligada à frustração de não conseguir alcançar seus objetivos, sonhos, ilusões. Precisamos saber lidar com a adversidade e a grande adversária que a vida nos reserva é a morte. Este medo da morte é a raiz da crise existencial. Entretanto, este medo paralisante é recalcado pela nossa sociedade com o trabalho, o consumo, os passatempos, sublimados pela arte e pela religião, mas continua como um mal-estar permanente.
Vivemos em permanente tensão – por exemplo, quando sou obrigado a ser um ator social representando um personagem que é falso; quando agimos no trabalho obedecendo ordens absurdas, dizendo sempre “sim senhor”. Quando nosso potencial não está sendo bem aproveitado e, mesmo assim, continuamos trabalhando em um ambiente desmotivador, convivemos com fatores que geram tristeza, desânimo, melancolia, ou seja, o desespero de ser obrigado a ser alguém que não se quer ser, simplesmente para sobreviver. Por mais que pense, esforce ou batalhe, não ha nenhuma expectativa de melhora. Por isso, procura-se manter a imagem, a família, o emprego, mesmo não estando satisfeito ou feliz, e aos poucos, o desânimo, a frustração constante pode evoluir para um quadro depressivo. A depressão contém as sementes do desespero de ser o que não se quer ser.
Geralmente, a ansiedade está relacionada ao futuro, às preocupações que podem possuir um fundo de verdade, como a situação política e econômica de um país. Se vai conseguir pagar as contas no fim do mês. O medo do desemprego. A angústia de não dar conta do trabalho cada vez mais exigente, com as empresas e instituições seguindo um modelo obsessivo de metas e produtividade. Situações que geram ansiedade, angústia, ou seja, que levam ao desespero de não conseguir ser o que se quer ser. A depressão seria o sintoma do sujeito que “não suporta ser ele próprio”, nas palavras de Kierkegaard, já que, segundo o autor, “delícia é ser o que eu quero ser”, e suplício, “ser o eu que não quero ser”.
No serviço público, os estudos sobre absenteísmo apontam os transtornos mentais e emocionais como o principal fator de afastamento do trabalho. Qual será a relação destes transtornos com o desespero, já que “não podemos nos libertar de nós mesmos”, mas conviver, sem adoecer com nossas contradições e paradoxos da vida, da sociedade, do mundo do trabalho.
Diferente da doença física que mantém uma relação de causa e efeito entre o sintoma e o órgão adoecido, como, por exemplo, a cor amarela de alguém com hepatite remete ao fígado como órgão adoecido, quando falamos do estado mental, estamos falando de algo que como as emoções não pode ser medido. O cérebro de um deprimido, de um psicótico, de um gênio, de um criminoso em autópsias, não apresenta diferenças. Somente as doenças cerebrais como tumores, acidente vascular cerebral (AVC), entre outros, são identificados na autópsia.
Por isso, o mental é regido pelas relações sociais, familiares, pela genética, pelo país em que se nasce, com sua cultura, normas, leis e tabus. Nessa interação entre indivíduo, seu semelhante, sua sociedade e sua cultura, surge o sujeito pensante, razão e emoção.
A principal forma de nos relacionarmos é pela linguagem, que, além de nos diferenciar de todos os animais, permite que haja comunicação, transmissão e aperfeiçoamento de conhecimento, e o ser humano só existe por causa da linguagem. Entretanto, nossa sociedade tirou este aspecto mágico, quase que divino da linguagem, que é a essência da relação eu-tu. A linguagem é banalizada desde a mais tenra infância como algo que em nós é tão natural como respirar, quando na realidade é um aprendizado, pois é o outro que me ensina a falar, escrever. A escola nos ensina a pensar, calcular, medir, e a vida cria este ser único que sou eu, que é você. Iguais enquanto seres humanos, mas diferentes em nossa autonomia, desejos e pensamentos.
Kierkegaard já dizia “o reconhecimento produz o alívio”, ou seja, diminui a angústia, o sofrimento, o desespero, e devemos “ousar ser um indivíduo, não um qualquer, mas este que somos, isolado na imensidade de seu esforço e da sua responsabilidade”, sendo o ser humano, síntese de antagônicos (finito e infinito, temporal e eterno, liberdade e necessidade). Como dizia Freud, somos definidos enquanto sujeito, pela forma como lidamos com nossas pulsões, tanto as pulsões de vida quanto as mortíferas, e para isto, temos que nos relacionar com o mundo e com nossos semelhantes.
Assim, voltamos ao tema que me proponho a trabalhar, a saúde do trabalhador. O que acontece na relação de trabalho, no relacionamento interpessoal, para que haja tanto transtorno mental? Quando a emoção diz: não suporto mais!!!! Quando a mente esgotada por horas e horas de trabalho, ainda tem de trabalhar mais, como no conto de Fiódor Dostoiévski  que escrevi anteriormente. Esta é a reflexão que trago hoje: Como viver e conseguir ser o que se quer ser e conseguir escapar da pulsão de morte, que é o desespero humano?
Não há uma fórmula. Cada resposta é individual. Mas, coletivamente, no trabalho, temos que fortalecer nossa entidade sindical, pois, se no caso individual cada caso é um caso, o mal-estar que acontece no trabalho envolve o coletivo de trabalhadores e somente um sindicato forte, com a participação dos servidores, será uma  perspectiva na luta por direitos, por um ambiente saudável, no trabalho que não gere tanto sofrimento e desespero.
O SITRAEMG oferece a seus filiados atendimentos psicológicos individuais — A Clínica do Trabalho do DSTCAM. Assim, o Sindicato age de forma coletiva e oferece um espaço clínico para que cada um possa lidar melhor com sua angústia, ansiedade, no trabalho, enfrentando o desespero em encontros terapêuticos que possibilitem convivermos com nossa condição humana. Afinal, já afirmava Kierkegaard: “quanto mais consciência humana, mais eu haverá, quanto mais eu, mais vontade, quanto maior a vontade, maior será a consciência de si próprio”, e, assim, combatemos o desespero moderno cujos sintomas são a ansiedade e a depressão.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

ARTIGO: DIA NACIONAL DE COMBATE AO ASSÉDIO MORAL

NO DIA NACIONAL DE COMBATE AO ASSÉDIO MORAL, ESPECIALISTA FALA SOBRE CONFLITOS NO TRABALHO
* Por Arthur Lobato

Quando pensamos nos conflitos no trabalho, que muitas vezes evoluem para o assédio moral, devemos analisar a natureza humana, afinal somos seres do conflito, como já diziam os filósofos e os reformadores religiosos. Um dos textos mais antigos do mundo, o hindu Bhaghavad-gitã, mostra a luta do guerreiro Arjuna contra outros guerreiros, mas, principalmente, contra si mesmo. Neste texto milenar encontramos a definição de Arjuna sobre a mente dividida, uma das características do ser humano: “A natureza da mente é vacilante, às vezes ela aceita algo e imediatamente rejeita a mesma coisa. O aceitar e o rejeitar constituem o processo da mente”.
Este pensamento que revela o ser clivado, dividido, tão bem analisado por Freud, encontramos também nos textos de um dos fundadores do cristianismo, o apóstolo Paulo, que escreveu na carta aos romanos: “Porque o que faço não o aprovo; pois o que quero, isso não faço, mas o que aborreço isso faço”.
Assim, temos o primeiro tipo de conflito, o conflito intrapsíquico, ou seja, conflito entre eu e eu mesmo. Uma das causas do conflito intrapsíquico é a realidade da morte, que não podemos negar, mas que buscamos através da religião, da arte, da loucura, subterfúgios para escapar desta dura realidade, nossa mortalidade, esse conflito entre viver e morrer, que gera o pânico, o desespero, a ansiedade, a depressão e este conflito só termina com nossa morte. Entretanto, segundo as religiões, ainda seremos julgados por nossos atos e pensamentos, e assim, vivos ainda imaginamos nosso conflito pós-morte.
Se somos seres do conflito, como conviver um com o outro?
A resposta é o poder absoluto do estado sobre o indivíduo, fruto do pacto social, como Thomas Hobbes escreveu em sua obra “O Leviatã”. O estado na pessoa do soberano e de suas instituições será mais forte e poderoso que o indivíduo e julgará e punirá os conflitos entre seus súditos. Mas nos conflitos entre estados, que levam às guerras, conflito entre nações, que são na realidade conflitos entre seres humanos de países diferentes, não é mais a violência de um indivíduo, mas a violência da comunidade. Afinal, por que tamanha violência de um ser humano contra outro ser humano? Por que é tão difícil “amar o próximo como a ti mesmo”?
Freud em sua obra “O mal estar na cultura” já avisava: “fora da civilização somente existe a barbárie”, ou seja, ou o ser humano reprime seus instintos agressivos ou uma sociedade realmente humana jamais existirá, pois como disse o psicanalista, fome e sexo são nossas pulsões primárias, e para satisfazê-las o ser humano realiza todas as transgressões, principalmente, matar, eliminar quem se opõe ao seu desejo, por isso a sociedade é construída no recalque destas pulsões primárias. Freud destaca em sua obra o “conflito de opinião”, que ocorre entre pessoas, e que pode levar à agressão verbal, agressão física e, no ambiente do trabalho, evoluir para o assédio moral.
No nosso campo de trabalho, a saúde do trabalhador, é muito comum no ambiente de trabalho os conflitos interpessoais, conflitos entre colegas de trabalho, por diversos motivos, principalmente os conflitos de opinião. É o conflito interpessoal, conflito entre duas ou mais pessoas.
Se somos seres do conflito tanto ontogenicamente (o indivíduo), como filogeneticamente (a espécie humana), o que diremos nos conflitos que acontecem no trabalho? E o que dizer do serviço público, onde concursados de diferentes idades, formação cultural, religião, gênero, devem trabalhar juntos e conviver entre si por anos e anos?  Só vendo o outro ao mesmo tempo como meu semelhante, mas respeitando sua alteridade, suas diferenças, características da subjetividade humana e praticando a tolerância podemos sobreviver enquanto espécie.
Por isso, é importante que saibamos que os conflitos interpessoais no trabalho são normais, pois o conflito é explícito, diferente do assédio moral que é feito de forma oculta. Dejours, fundador da psicodinâmica do trabalho, a qual analisa a relação de prazer e sofrimento no trabalho, afirma que o conflito é positivo, quando explicitado, debatido e que as partes envolvidas aceitem o que vai ser melhor para o trabalho a partir da análise do conflito e propostas de solução.
O mesmo não pode ser dito do assédio moral, pois há uma intenção de prejudicar, com atos, gestos e palavras direcionadas contra uma pessoa, atos e palavras feitas de forma dissimulada, ambígua, gerando dúvidas na autoestima e na capacidade laboral do assediado. Importante no assédio moral é como o modelo de gestão e a organização do trabalho são componentes deste processo. Um modelo de gestão que pregue a competitividade e o individualismo transforma colegas em adversários, e muitas vezes vale tudo para ter uma promoção ou um cargo ou função comissionada.
Sempre é bom lembrar o que é assédio moral: “é uma conduta abusiva, intencional, frequente e repetida, que ocorre no ambiente de trabalho, e que visa diminuir, vexar, constranger, desqualificar e demolir psiquicamente um indivíduo ou um grupo, degradando as condições de trabalho, atingindo sua dignidade e colocando em risco sua integridade pessoal e profissional.” Freitas, Heloani, Barreto (2008)
Quando lutamos contra o assédio moral, trabalhamos com a prevenção e com um processo educativo onde é importante lidar com conflitos, respeitando o outro, para também ser respeitado. Queremos dar visibilidade a este inimigo invisível no ambiente no trabalho, combater o psicoterror, a gestão por stress, e a organização de trabalho que favorece o adoecimento dos trabalhadores, seja por permitir ou não coibir o assédio moral, esta é uma luta política do SINJUS-MG, há mais de dez anos como referencia no combate ao assédio moral.
O SINJUS oferece ao sindicalizado o plantão de combate ao assédio moral, toda terça-feira, com a participação de um advogado, de um psicólogo e de um diretor do Sindicato. Dentro do Projeto Saúde do Trabalhador, há o atendimento psicológico individual toda quinta-feira.
Importante também é o trabalho da Comissão Paritária/Assédio Moral criada pela lei 116/2011 e regulamentada no TJMMG.  É uma instância interna do Tribunal muito útil para medições de conflitos no trabalho, contribuindo assim para um ambiente saudável no trabalho.
*Arthur Lobato é psicólogo/saúde do trabalhador.
Atendimento individual para servidores sindicalizados toda quinta-feira.



Dia Nacional de Luta contra o Assédio Moral na TV


No dia 2 de maio é celebrado no Brasil o Dia Nacional de Luta contra o Assédio Moral, conforme estabelece a Lei 4.326/2004, de autoria da então deputada pelo PT, a médica formada pela UNB, nascida em Januária, Minas Gerais, Maria José Conceição Maninha,

Data importante para que as empresas e entidades realizem atividades com objetivo de combate esse tipo de conduta no ambiente de trabalho.





Wagner Ferreira fala sobre o Dia Nacional de Combate ao Assédio Moral no Trabalho