quarta-feira, 2 de abril de 2014

Assédio Moral: Jornal Estado de Minas destaca abordagem do SERJUSMIG sob o tema



Servidores são as maiores vítimas
Pressão e cumprimento de metas contribuem para aumento de casos de assédio moral no serviço público. Superior Tribunal de Justiça (STJ) designou comissão para analisar casos mais graves no Judiciário

Por: Carolina Cotta, repórter do Estado de Minas

A questão do assédio ganha contornos ainda mais graves no serviço público, onde a estabilidade e a garantia de emprego podem ampliar os meios de pressão. Em áreas como o Judiciário, por exemplo, em que o contigente profissional não supre a demanda de trabalho, os mais penalizados são os servidores. Isso levou a uma resolução inédita. No fim de 2013, a então ministra do Superior Tribunal de Justiça (STJ) Eliana Calmon considerou o assédio moral no serviço público uma modalidade de improbidade administrativa. Segundo o mestre em direito administrativo Humberto Luchessi de Carvalho, presidente da Comissão de Articulação e Acesso ao Conselho Nacional de Justiça, foi um divisor de águas no modo de o serviço público lidar com o assédio moral.

Cabe à comissão conferir desvios éticos e formular soluções para a eficiência da gestão no Judiciário. Com base no conceito de trabalho decente da Organização Inernacional do Trabalho (ver box), a comissão produziu a cartilha Trabalho decente e sustentabilidade – A saúde física e emocional dos servidores do Poder Judiciário , com informações essenciais sobre a saúde ocupacional e formas de buscar auxílio. A ideia é ensinar o servidor a mensurar situações em que o seu ambiente de trabalho é inadequado e como pleitear seus direitos. Hoje, o assédio moral não é criminalizado, embora exista um projeto de lei para isso. Em Minas Gerais, especificamente, o fenômeno é tratado como infração administrativa. 

A realidade do Judiciário tem gerado muitos casos de assédio moral. “Existem muitas metas e do magistrado é exigida produtividade máxima para uma promoção na carreira. Isso acaba sendo transferido para o servidor, que fica muito pressionado”, explica Luchessi. Para Sandra Silvestrini, presidente do Sindicato dos Servidores da Justiça de Primeira Instância de Minas Gerais, outra questão que vem impulsionando o assédio moral no serviço público, mais do que na iniciativa privada, é o fato de o superior não poder se ver livre daquele funcionário que ele quer prejudicar. “Como há estabilidade, os ataques são maiores. A alternativa do assediador é fazer o servidor adoecer e aposentar para tirá-lo.”

Escrivã judicial do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais, em Uberlândia, Flávia Felício, de 42 anos, viu sua vida profissional e pessoal sofrer uma reviravolta desde 2007. Sua saúde foi extremamente afetada com os problemas de relacionamento que vivenciou com o juiz com quem trabalhava naquele período. Tudo começou quando Flávia foi trabalhar em uma secretaria que precisava de reestruturação. Apesar de a sua carga horária ser de oito horas diárias, ela entreva às 7h e só conseguia sair às 22h. “O juiz exigia que eu fizesse o trabalho de escrivã e também de despachos, o que seria atribuição dele ou de seus assessores. O volume de trabalho era tão grande que engordei 30 quilos em quatro meses e adoeci.”

Flávia procurou o juiz e pediu que ele procurasse outro escrivão, porque ela estava adoecendo com aquela rotina. “Mas ele disse que ninguém dizia não para ele e que não me deixaria sair”, lembra Flávia, que passou por uma série de problemas. Contra ela o juiz moveu cinco processos administrativos. O julgamento de todos só terminou no final do ano passado, e Flávia venceu todos. Ele também a suspendeu do trabalho, mas como era inconstitucional, Flávia conseguiu uma liminar para voltar no dia seguinte. Só depois de uma internação médica, e de um ano e meio vivenciando o assédio moral, é que conseguiu com a Corregedoria de Justiça a transferência para outra vara.

“Foram vários processos até que eu conseguisse me livrar do problema, mas durante esse período eu desenvolvi fibriomialgia, síndrome do pânico e fobia social. No final, a lei me protegeu, mesmo sendo contra um juiz. As pessoas me chamaram de maluca por eu ter coragem de enfrentar essa situação, denunciar. Consegui que a justiça fosse feita na casa da justiça”, conta Flávia, que não desistiu para não abrir mão do que acredita. “Eu não fiz direito para ganhar dinheiro, e sim para ver a justiça ser aplicada. Ainda acredito que podemos fazer justiça com justiça. Se eu desistisse teria vergonha de mim mesma. Não tinha que provar nada para ninguém”, desabafa.

Casos como o de Flávia são comuns. Para que sejam denunciados, o Sindicato dos Servidores da Justiça de Primeira Instância de Minas Gerais tem trabalhado para a conscientização dos servidores, sempre alertando para o que configura assédio moral. Desde a aprovação da Lei Complementar 116, de 2001, pela Assembleia Legislativa de Minas Gerais, o Tribunal de Justiça precisa instituir uma comissão de prevenção e combate ao assédio moral. Hoje, o sindicato recebe as denúncias e apura os fatos, para então passar o caso para a comissão. Todo o processo é sigiloso. “Mas isso é pouco. Não queremos apenas uma atuação pontual em cima de casos, queremos a ampliação de uma política de prevenção ao assédio moral”, defende.

FAVORECIMENTO Não há uma legislação específica para julgar casos de assédio sexual no trabalho. Segundo Oswaldo Tadeu Barbosa Guedes, juiz titular da 1ª Vara do Trabalho de Varginha, e convocado para atuar no Tribunal Regional do Trabalho da 3ª Região, o Código Penal diz que o assédio sexual se estabelece no momento em que a pessoa de maior poder hierárquico tenta o favorecimento sexual. “Mas é difícil fazer prova, a menos que esse assédio se torne público. É a partir de testemunhos que a Justiça avalia os casos”, explica. Assim como no assédio moral, a Justiça é a responsável pelo pagamento das indenizações, mas no caso do assédio sexual o assediador é julgado na Justiça trabalhista e também na Justiça penal

No entanto, Clotário Cardoso, presidente do Sindicato dos Bancários de Belo Horizonte e região, faz uma ponderação: “Às vezes é apenas uma cobrança feita de forma mais rígida e o funcionário pensa que é assédio”, comenta.

O SERJUSMIG agradece as participações da Servidora Flávia Felício, escrivã judicial do TJMG em Uberlândia, e do Assessor Jurídico do Sindicato, Dr. Humberto Luchessi de Carvalho, presidente da Comissão de Articulação e Acesso ao Conselho Nacional de Justiça, que contribuíram sobremaneira para a construção desta matéria.

No próximo domingo, o jornal dará continuidade a esta série de reportagens com a publicação da matéria "Doenças provocadas pelo estresse no trabalho"

A íntegra da reportagem está disponível para assinantes online do Jornal.
(Incluída em 24/03/2014 às 15:58)

segunda-feira, 17 de março de 2014

Manifesto de pesquisadores e trabalhadores do campo Saúde Mental e Trabalho


Nós, que atuamos na área de saúde do trabalhador, vimos a público manifestar nossa apreensão, pela divulgação crescente de cursos e atividades, voltadas a trabalhadores, com títulos aproximados a “Saúde Mental e Trabalho”, “Saúde Mental do Trabalhador” e similares, promovidas por instituições diversas. Este sentimento decorre da percepção de que o conteúdo de muitos desses cursos nada têm a ver com esse campo de conhecimento e, pelo contrário, trazem valores e conceitos muitas vezes incompatíveis com esse referencial teórico.

Por essa razão, avaliamos como fundamental, neste momento, ratificar que a persistente e crescente precarização do trabalho não pode ficar de fora de uma análise séria sobre as transformações no mundo do trabalho. Entre outras consequências, a precarização do trabalho tem provocado um forte aumento do adoecimento da classe trabalhadora, nos diversos ramos econômicos, como atestam as estatísticas, os estudos e os depoimentos dos trabalhadores e seus respectivos sindicatos. Sabemos também que os caminhos a serem trilhados para a reversão dessa situação passam pela disputa de ideias entre os diferentes segmentos sociais.
A pressão e a intensificação do trabalho não podem ser naturalizadas e tampouco as práticas de gestão adoecedora das empresas, centradas na exigência de produtividade e estipulação de metas inalcançáveis.

Sendo assim, estamos convictos de que as ações de promoção de saúde e prevenção de adoecimentos não passam de ações cosméticas praticadas em diversas empresas, materializadas em ginásticas e exercícios físicos, em “câmaras de despressurização,” em palestras de motivação para que todos busquem o alcance das metas estipuladas unilateralmente pelas empresas e em finais de semana com atividades de encontros forçados, sejam para manobras de “ataque” como grupos militares fazem, sejam para “confraternizações”.

Essas práticas não só não têm reduzido os adoecimentos, como criam mais obrigações para os trabalhadores, roubam os raros momentos de espontaneidade no ambiente de trabalho e os sequestram de suas famílias e amigos nos momentos de lazer.

Os adoecimentos, em nosso entender, continuarão a ocorrer enquanto não se romper com a lógica de exploração do trabalho que não considera que os seres humanos necessitam dos períodos de atividade e de repouso, do espaço para uso da criatividade e autonomia, da liberdade de pensar, refletir e decidir, da possibilidade de agir utilizando suas capacidades e que a realização profissional passa pela real convivência, pelo reconhecimento social e pelo sentimento de que seu trabalho contribui para a construção de uma sociedade que priorize a vida e a saúde dos seres vivos.

Sabemos que as empresas e seus agentes sociais, infelizmente, têm trabalhado em sentido contrário, buscando o enquadramento e o aprisionamento das potencialidades e subjetividades dos trabalhadores, por meio de gestões que incutem o medo, a desconfiança e o esgarçamento da rede de solidariedade entre os trabalhadores.

Infelizmente, algumas áreas de conhecimento tem tido uma participação expressiva nesse tipo de atividade. Tais práticas se sustentam em explicações que naturalizam o contexto social e do trabalho e responsabilizam trabalhadores/as pelo sofrimento e adoecimento sabidamente provocados pelas condições e organização do trabalho.

Por essa razão, reafirmamos que qualquer prática que aprofunde essa sujeição imposta aos trabalhadores, para nós, é nefasta e só contribui para nos distanciarmos de um mundo mais igualitário.

Assinam:
Heloisa Aparecida de Souza - Pontifícia Universidade Católica de Campinas
Marcelo Soares Vilhanueva - Trabalhador do SUS
Maria Dionísia do Amaral Dias – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
Tereza Luiza F. dos Santos -
Vera Lucia Navarro - Universidade de São Paulo
Andréia Aparecida de Miranda Ramos – Universidade Federal de Juiz de Fora
Betty Boguchwal - CEREST/CVS/Secretaria Estado Saúde/SP
Carolina de Moura Grando – Psicóloga
Daniela Sanches Tavares – FUNDACENTRO - Ministério do Trabalho e Emprego
Edith Seligmann Silva - Psiquiatra e pesquisadora em Saúde Mental Relacionada ao Trabalho
Ivani Valarelli Menezes - CEREST/CVS/Secretaria Estado Saúde/SP
José Carlos do Carmo - CEREST/CVS/Secretaria Estado Saúde/SP
Leny Sato - Universidade de São Paulo
Lucianne Sant'Anna de Menezes - Universidade Federal de Uberlândia
Luiz Gonzaga Chiavegato Filho - Universidade Federal de São João del-Rei
Marcia Hespanhol Bernardo- Pontifícia Universidade Católica de Campinas
Mareli Pfützenreuter - CEREST /Joinville-SC
Universidade Estadual Paulista

Maria Maeno - FUNDACENTRO - Ministério do Trabalho e Emprego
Marisa Aparecida Elias – Universidade de São Paulo
Renata Paparelli -
Rita de Cássia R. Louzada - Universidade Federal do Rio de Janeiro
Rose Marie Postigo Rauen - CEREST/Indaiatuba/SP
FUNDACENTRO - Ministério do Trabalho e Emprego 

É assédio moral?









Alguém se enquadra no texto abaixo?



COMO A MEDICINA DA DOENÇA FUNCIONA

Por Carlos Bayma

Aos 30 anos, você tem uma depressãozinha, uma tristeza meio persistente: prescreve-se FLUOXETINA.
A Fluoxetina dificulta seu sono. Então, prescreve-se CLONAZEPAM, o Rivotril da vida. O Clonazepam o deixa meio bobo ao acordar e reduz sua memória. Volta ao doutor. 

Ele nota que você aumentou de peso. Aí, prescreve SIBUTRAMINA.

A Sibutramina o faz perder uns quilinhos, mas lhe dá uma taquicardia incômoda. Novo retorno ao doutor. Além da taquicardia, ele nota que você, além da “batedeira” no coração, também está com a pressão alta. Então, prescreve-lhe LOSARTANA e ATENOLOL, este último para reduzir sua taquicardia.

Você já está com 35 anos e toma: Fluoxetina, Clonazepam, Sibutramina, Losartana e Atenolol. E, aparentemente adequado, um “polivitamínicos” é prescrito. Como o doutor não entende nada de vitaminas e minerais, manda que você compre um “Polivitamínico de A a Z” da vida, que pra muito pouca coisa serve. Mas, na mídia, Luciano Huck disse que esse é ótimo. Você acreditou, e comprou. Lamento!

Já se vão R$ 350,00 por mês. Pode pesar no orçamento. O dinheiro a ser gasto em investimentos e lazer, escorre para o ralo da indústria farmacêutica. Você começa a ficar nervoso, preocupado e ansioso (apesar da Fluoxetina e do Clonazepam), pois as contas não batem no fim do mês. Começa a sentir dor de estômago e azia. Seu intestino fica “preso”. Vai a outro doutor. Prescrição: OMEPRAZOL + DOMPERIDONA + LAXANTE “NATURAL”. 

Os sintomas somem, mas só os sintomas, apesar da “escangalhação” que virou sua flora intestinal. Outras queixas aparecem. Dentre elas, uma é particularmente perturbadora: aos 37 anos, apenas, você não tem mais potência sexual. Além de estar “brochando” com frequência, tem pouquíssimo esperma e a libido está embaixo dos pés.

Para o doutor da medicina da doença, isso não é problema. Até manda você escolher o remédio: SILDANAFIL, TADALAFIL, LODENAFIL ou VARDENAFIL, escolha por pim-pam-pum. Sua potência melhora, mas, como consequência, esses remédios dão uma tremenda dor de cabeça, palpitação, vermelhidão e coriza. Não há problema, o doutor aumenta a dose do ATENOLOL e passa uma NEOSALDINA para você tomar antes do sexo. Se precisar, instila um “remedinho” para seu corrimento nasal, que sobrecarrega seu coração.

Quando tudo parecia solucionado, aos 40 anos, você percebe que seus dentes estão apodrecendo e caindo. (entre nós, é o antidepressivo). Tome grana pra gastar com o dentista. Nessa mesma época, outra constatação: sua memória está falhando bem mais que o habitual. Mais uma vez, para seu doutor, isso não é problema: GINKGO BILOBA é prescrito.

Nos exames de rotina, sua glicose está em 110 e seu colesterol em 220. Nas costas da folha de receituário, o doutor prescreve METFORMINA + SINVASTATINA. “É para evitar Diabetes e Infarto”, diz o cuidador de sua saúde(?!).

Aos 40 e poucos anos, você já toma: FLUOXETINA, CLONAZEPAM, LOSARTANA, ATENOLOL, POLIVITAMÍNICO de A a Z, OMEPRAZOL, DOMPERIDONA, LAXANTE “NATURAL”, SILDENAFIL, VARDENAFIL, LODENAFIL ou TADALAFIL, NEOSALDINA (ou “Neusa”, como chamam), GINKGO BILOBA, METFORMINA e SINVASTATINA (convenhamos, isso está muito longe de ser saudável!). Mil reais por mês! E sem saúde!!!

Entretanto, você ainda continua deprimido, cansado e engordando. O doutor, de novo. Troca a Fluoxetina por DULOXETINA, um antidepressivo “mais moderno”. Após dois meses você se sente melhor (ou um pouco “menos ruim”). Porém, outro contratempo surge: o novo antidepressivo o faz urinar demoradamente e com jato fraco. Passa a ser necessário levantar duas vezes à noite para mijar. Lá se foi seu sono, seu descanso extremamente necessário para sua saúde. Mas isso é fácil para seu doutor: ele prescreve TANSULOSINA, para ajudar na micção, o ato de urinar. Você melhora, realmente, contudo... não ejacula mais. Não sai nada!
Vou parar por aqui. É deprimente. Isso não é medicina. Isso não é saúde.

Essa história termina com uma situação cada vez mais comum: a DERROCADA EM BLOCO da sua saúde. Você está obeso, sem disposição, com sofrível ereção e memória e concentração deficientes. Diabético, hipertenso e com suspeita de câncer. Dentes: nem vou falar. O peso elevado arrebentou seu joelho (um doutor cogitou até colocar uma prótese). Surge na sua cabeça a ideia maluca de procurar um CIRURGIÃO BARIÁTRICO, para “reduzir seu estômago” e um PSICOTERAPEUTA para cuidar de seu juízo destrambelhado é aconselhado.

Sem grana, triste, ansioso, deprimido, pensando em dar fim à sua minguada vida e... DOENTE, muito doente! Apesar dos “remédios” (ou por causa deles!!).

A indústria farmacêutica? “Vai bem, obrigado!”, mais ainda com sua valiosa contribuição por anos ou décadas. E o seu doutor? “Bem, obrigado!”, graças à sua doença (ou à doença plantada passo-a-passo em sua vida).
COMO A
                                                          MEDICINA DA
                                                          DOENÇA
                                                          FUNCIONA Por
                                                          Carlos Bayma
                                                          Aos 30 anos,
                                                          você tem uma
                                                          depressãozinha,
                                                          uma tristeza
                                                          meio
                                                          persistente:
                                                          prescreve-se
                                                          FLUOXETINA. A
                                                          Fluoxetina
                                                          dificulta seu
                                                          sono. Então,
                                                          prescreve-se
                                                          CLONAZEPAM, o
                                                          Rivotril da
                                                          vida. O
                                                          Clonazepam o
                                                          deixa meio
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                                                          reduz sua
                                                          memória. Volta
                                                          ao doutor. Ele
                                                          nota que você
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                                                          peso. Aí,
                                                          prescreve
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                                                          Sibutramina o
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                                                          lhe dá uma
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                                                          incômoda. Novo
                                                          retorno ao
                                                          doutor. Além
                                                          da
                                                          taquicardia,
                                                          ele nota que
                                                          você, além da
                                                          “batedeira” no
                                                          coração,
                                                          também está
                                                          com a pressão
                                                          alta. Então,
                                                          prescreve-lhe
                                                          LOSARTANA e
                                                          ATENOLOL, este
                                                          último para
                                                          reduzir sua
                                                          taquicardia.
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                                                          com 35 anos e
                                                          toma:
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                                                          Clonazepam,
                                                          Sibutramina,
                                                          Losartana e
                                                          Atenolol. E,
                                                          aparentemente
                                                          adequado, um
                                                          “polivitamínicos”
                                                          é prescrito.
                                                          Como o doutor
                                                          não entende
                                                          nada de
                                                          vitaminas e
                                                          minerais,
                                                          manda que você
                                                          compre um
                                                          “Polivitamínico
                                                          de A a Z” da
                                                          vida, que pra
                                                          muito pouca
                                                          coisa serve.
                                                          Mas, na mídia,
                                                          Luciano Huck
                                                          disse que esse
                                                          é ótimo. Você
                                                          acreditou, e
                                                          comprou.
                                                          Lamento! Já se
                                                          vão R$ 350,00
                                                          por mês. Pode
                                                          pesar no
                                                          orçamento. O
                                                          dinheiro a ser
                                                          gasto em
                                                          investimentos
                                                          e lazer,
                                                          escorre para o
                                                          ralo da
                                                          indústria
                                                          farmacêutica.
                                                          Você começa a
                                                          ficar nervoso,
                                                          preocupado e
                                                          ansioso
                                                          (apesar da
                                                          Fluoxetina e
                                                          do
                                                          Clonazepam),
                                                          pois as contas
                                                          não batem no
                                                          fim do mês.
                                                          Começa a
                                                          sentir dor de
                                                          estômago e
                                                          azia. Seu
                                                          intestino fica
                                                          “preso”. Vai a
                                                          outro doutor.
                                                          Prescrição:
                                                          OMEPRAZOL +
                                                          DOMPERIDONA +
                                                          LAXANTE
                                                          “NATURAL”. Os
                                                          sintomas
                                                          somem, mas só
                                                          os sintomas,
                                                          apesar da
                                                          “escangalhação”
                                                          que virou sua
                                                          flora
                                                          intestinal.
                                                          Outras queixas
                                                          aparecem.
                                                          Dentre elas,
                                                          uma é
                                                          particularmente
                                                          perturbadora:
                                                          aos 37 anos,
                                                          apenas, você
                                                          não tem mais
                                                          potência
                                                          sexual. Além
                                                          de estar
                                                          “brochando”
                                                          com
                                                          frequência,
                                                          tem
                                                          pouquíssimo
                                                          esperma e a
                                                          libido está
                                                          embaixo dos
                                                          pés. Para o
                                                          doutor da
                                                          medicina da
                                                          doença, isso
                                                          não é
                                                          problema. Até
                                                          manda você
                                                          escolher o
                                                          remédio:
                                                          SILDANAFIL,
                                                          TADALAFIL,
                                                          LODENAFIL ou
                                                          VARDENAFIL,
                                                          escolha por
                                                          pim-pam-pum.
                                                          Sua potência
                                                          melhora, mas,
                                                          como
                                                          consequência,
                                                          esses remédios
                                                          dão uma
                                                          tremenda dor
                                                          de cabeça,
                                                          palpitação,
                                                          vermelhidão e
                                                          coriza. Não há
                                                          problema, o
                                                          doutor aumenta
                                                          a dose do
                                                          ATENOLOL e
                                                          passa uma
                                                          NEOSALDINA
                                                          para você
                                                          tomar antes do
                                                          sexo. Se
                                                          precisar,
                                                          instila um
                                                          “remedinho”
                                                          para seu
                                                          corrimento
                                                          nasal, que
                                                          sobrecarrega
                                                          seu coração.
                                                          Quando tudo
                                                          parecia
                                                          solucionado,
                                                          aos 40 anos,
                                                          você percebe
                                                          que seus
                                                          dentes estão
                                                          apodrecendo e
                                                          caindo. (entre
                                                          nós, é o
                                                          antidepressivo).
                                                          Tome grana pra
                                                          gastar com o
                                                          dentista.
                                                          Nessa mesma
                                                          época, outra
                                                          constatação:
                                                          sua memória
                                                          está falhando
                                                          bem mais que o
                                                          habitual. Mais
                                                          uma vez, para
                                                          seu doutor,
                                                          isso não é
                                                          problema:
                                                          GINKGO BILOBA
                                                          é prescrito.
                                                          Nos exames de
                                                          rotina, sua
                                                          glicose está
                                                          em 110 e seu
                                                          colesterol em
                                                          220. Nas
                                                          costas da
                                                          folha de
                                                          receituário, o
                                                          doutor
                                                          prescreve
                                                          METFORMINA +
                                                          SINVASTATINA.
                                                          “É para evitar
                                                          Diabetes e
                                                          Infarto”, diz
                                                          o cuidador de
                                                          sua saúde(?!).
                                                          Aos 40 e
                                                          poucos anos,
                                                          você já toma:
                                                          FLUOXETINA,
                                                          CLONAZEPAM,
                                                          LOSARTANA,
                                                          ATENOLOL,
                                                          POLIVITAMÍNICO
                                                          de A a Z,
                                                          OMEPRAZOL,
                                                          DOMPERIDONA,
                                                          LAXANTE
                                                          “NATURAL”,
                                                          SILDENAFIL,
                                                          VARDENAFIL,
                                                          LODENAFIL ou
                                                          TADALAFIL,
                                                          NEOSALDINA (ou
                                                          “Neusa”, como
                                                          chamam),
                                                          GINKGO BILOBA,
                                                          METFORMINA e
                                                          SINVASTATINA
                                                          (convenhamos,
                                                          isso está
                                                          muito longe de
                                                          ser
                                                          saudável!).
                                                          Mil reais por
                                                          mês! E sem
                                                          saúde!!!
                                                          Entretanto,
                                                          você ainda
                                                          continua
                                                          deprimido,
                                                          cansado e
                                                          engordando. O
                                                          doutor, de
                                                          novo. Troca a
                                                          Fluoxetina por
                                                          DULOXETINA, um
                                                          antidepressivo
                                                          “mais
                                                          moderno”. Após
                                                          dois meses
                                                          você se sente
                                                          melhor (ou um
                                                          pouco “menos
                                                          ruim”). Porém,
                                                          outro
                                                          contratempo
                                                          surge: o novo
                                                          antidepressivo
                                                          o faz urinar
                                                          demoradamente
                                                          e com jato
                                                          fraco. Passa a
                                                          ser necessário
                                                          levantar duas
                                                          vezes à noite
                                                          para mijar. Lá
                                                          se foi seu
                                                          sono, seu
                                                          descanso
                                                          extremamente
                                                          necessário
                                                          para sua
                                                          saúde. Mas
                                                          isso é fácil
                                                          para seu
                                                          doutor: ele
                                                          prescreve
                                                          TANSULOSINA,
                                                          para ajudar na
                                                          micção, o ato
                                                          de urinar.
                                                          Você melhora,
                                                          realmente,
                                                          contudo... não
                                                          ejacula mais.
                                                          Não sai nada!
                                                          Vou parar por
                                                          aqui. É
                                                          deprimente.
                                                          Isso não é
                                                          medicina. Isso
                                                          não é saúde.
                                                          Essa história
                                                          termina com
                                                          uma situação
                                                          cada vez mais
                                                          comum: a
                                                          DERROCADA EM
                                                          BLOCO da sua
                                                          saúde. Você
                                                          está obeso,
                                                          sem
                                                          disposição,
                                                          com sofrível
                                                          ereção e
                                                          memória e
                                                          concentração
                                                          deficientes.
                                                          Diabético,
                                                          hipertenso e
                                                          com suspeita
                                                          de câncer.
                                                          Dentes: nem
                                                          vou falar. O
                                                          peso elevado
                                                          arrebentou seu
                                                          joelho (um
                                                          doutor cogitou
                                                          até colocar
                                                          uma prótese).
                                                          Surge na sua
                                                          cabeça a ideia
                                                          maluca de
                                                          procurar um
                                                          CIRURGIÃO
                                                          BARIÁTRICO,
                                                          para “reduzir
                                                          seu estômago”
                                                          e um
                                                          PSICOTERAPEUTA
                                                          para cuidar de
                                                          seu juízo
                                                          destrambelhado
                                                          é aconselhado.
                                                          Sem grana,
                                                          triste,
                                                          ansioso,
                                                          deprimido,
                                                          pensando em
                                                          dar fim à sua
                                                          minguada vida
                                                          e... DOENTE,
                                                          muito doente!
                                                          Apesar dos
                                                          “remédios” (ou
                                                          por causa
                                                          deles!!). A
                                                          indústria
                                                          farmacêutica?
                                                          “Vai bem,
                                                          obrigado!”,
                                                          mais ainda com
                                                          sua valiosa
                                                          contribuição
                                                          por anos ou
                                                          décadas. E o
                                                          seu doutor?
                                                          “Bem,
                                                          obrigado!”,
                                                          graças à sua
                                                          doença (ou à
                                                          doença
                                                          plantada
                                                          passo-a-passo
                                                          em sua vida).

sexta-feira, 14 de março de 2014

O assédio moral no meio sindical: uma contradição na luta de classes


Fonte: http://desacato.info/2013/11/o-assedio-moral-no-meio-sindical-uma-contradicao-na-luta-de-classes/

Por Marcela Cornelli.
foto-mesa-debate
Falar em Assédio Moral já não é tão novo, mas abordar o tema no meio sindical ainda é um desafio. Desafio este que a Fites (Federação Nacional dos Trabalhadores em Entidades Sindicais e órgãos de Classe), com o apoio do Sindes (Sindicato dos Trabalhadores em entidades sindicais da Grande Florianópolis e Região Sul), encarou ao lançar, no dia 30 de outubro, a cartilha “O Assédio Moral no Meio Sindical”. O lançamento foi realizado no auditório da Assembleia Legislativa do Estado de Santa Catarina, em Florianópolis, com o apoio da Frente Parlamentar Estadual em Defesa da Saúde do Trabalhador.

“O Assédio Moral fere os direitos e retira a identidade dos trabalhadores. A Frente surgiu com o objetivo de debater e combater esta prática. Para acabarmos com o assédio moral precisamos construir várias ações, mas, principalmente, conscientizar os trabalhadores e as trabalhadoras. A Frente parlamentar tem buscado avançar nesta luta”, disse o deputado Neodi Saretta (PT), presidente da Frente, que abriu a mesa do debate.

“A atual gestão da Fites priorizou esta luta. A cartilha traz alguns diferenciais de outras cartilhas sobre o assunto. A cartilha da Fites fala do assédio cometido pelo sindicalista, traz um depoimento de uma trabalhadora em sindicato e um questionário a ser respondido pelos trabalhadores e encaminhado à Federação”, disse Janilde Franco de Araújo, Diretora de Política Social da Fites, trabalhadora do Sindsprev/RJ e uma das elaboradoras da cartilha.

Na opinião de Janilde, “alguns sindicatos começaram a se transformar em grandes escritórios. É como se o sindicalista passasse a ter uma grande empresa para administrar. Ele não vai mais para a base fazer política e começa a disputar espaço com o funcionário dentro da entidade. Toda relação de trabalho tem conflitos. Isto é inerente à sociedade capitalista na qual vivemos onde há hierarquia, relação de poder e luta de classes. Mas o que deve imperar é o respeito.”

Emocionada, a diretora da Fites e do Sindes, Sivandra Krauspenhar, trabalhadora de sindicato e vítima de Assédio Moral, fez um relato do assédio que sofreu. Ela falou a dificuldade de denunciar o assédio e buscar a Justiça.“Fiquei três meses para poder escrever sobre o que aconteceu comigo. Escrever era relembrar o assédio”, conta. “Sempre trabalhei com amor e carinho. Foram 13 anos e não três dias. Não foram todos os diretores que me assediaram, mas os que não se manifestaram foram coniventes. Tive sintomas como depressão profunda, paralisia da cintura para cima, dores nos braços, entre outros. Quando retornei de uma licença médica eles tiraram minhas funções. Apesar de vítima, você se sente culpada pelo assédio. O apoio doa amigos da família é fundamental. É preciso também que o trabalhador que sofre assédio procure o seu sindicato para ser orientado. O Sindes me apoiou muito.”

“Assédio moral dói. Mas, quando vem de pessoas, sindicalistas, que dizem combater esta prática, dói mais ainda”, disse Schirlei Azevedo, Representante da Rede de Combate ao Assédio Moral no Trabalho. “Em uma empresa privada, a gestão visa o lucro e para isso oprime os trabalhadores. Dentro das entidades sindicais é ainda mais sofrido. Quando o trabalhador é também um militante, ele sonha com uma mudança na sociedade e quando o assédio acontece dentro do espaço que deveria ser de transformação e luta, ele perde sua identidade, desanima. Viver estas contradições é muito difícil. A solidariedade de classe precisa ser resgatada”. Para Schirlei, as relações de trabalho estão desumanizadas. Isso é resultado da sociedade capitalista que oprime os trabalhadores. “Não existe capitalismo humanizado. O capitalismo oprime e até mesmo ceifa vidas”.
“O trabalho continua sendo central nas nossas vidas e quando acontece alguma coisa negativa no trabalho, isso nos abala muito. Os trabalhadores em sindicatos se questionam o porquê sofreram algum tipo de violência se não estão em uma empresa privada. Em uma empresa, se o trabalhador se submete ao assédio, é um processo rápido até a sua demissão. No sindicato leva o tempo que a pessoa aguentar”, argumentou a palestrante Margarida Barreto, médica do trabalho, professora da Universidade de São Paulo (USP) e vice- coordenadora do NEXIN (Núcleo de Estudos Psicossociais da Dialética Exclusão/Inclusão Social).

“Em uma empresa privada os trabalhadores compram a ideia de que se a empresa crescer eles crescerão juntos. Em uma entidade sindical os trabalhadores compraram a ideia de que podem transformar o mundo”, ponderou a palestrante. “Não é possível aceitar que a solidão e o sofrimento do trabalhador sejam uma coisa normal. Que a injustiça impere no local de trabalho”.

O presidente da Fites e do Sindes/SC, Edilson Severino, que coordenou a mesa, disse que o desafio da Fites está só começando. “É um primeiro passo. Há muito o que fazer. A cartilha será lançada em outros estados no intuito de iniciarmos um combate a esta prática nefasta aos trabalhadores”.

Texto e fotos: Marcela Cornelli, jornalista e Diretora do Sindes



Fonte: Sindes.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Funcionários da TAM denunciam assédio




Foto: Nando Chiappetta/DP/D.A Press
Foto: Nando Chiappetta/DP/D.A Press
Vinte e um funcionários e ex-funcionários da TAM no Recife se reuniram, na noite desta segunda-feira, para organizar o enfrentamento de irregularidades que incluem perseguições, discriminação religiosa, assédio moral e sexual, inclusive com relatos de agressões físicas. Preservando seus nomes reais para não ampliar prejuízos como síndrome do pânico, eles afirmam que os problemas já ocorriam desde 2006, no Recife, quando acreditavam que o "Canal de Ética da TAM", em São Paulo, poderia resolver. Em janeiro, lamentam, as demissões de denunciantes e de uma testemunha evidenciaram a quebra de sigilo. A empresa disse desconhecer o caso, que nunca recebera esse tipo de denúncia e ficou de apurar e dar retorno.

As queixas foram relatadas, inclusive com testemunhas, ao "Canal de Ética TAM", e agora serão levadas ao Ministério Público do Trabalho, enquanto casos tramitam na Justiça do Trabalho. A decisão de abandopnar o sigilo do caso ocoreu quando, regressando de uma viagem de férias, o alvo principal de todas as denúncias começou a isolar profissionais que figuravam como autoras(es) ou testemunhas junto ao "Canal de Ética da TAM". Num rápido levantamento feito durante a reunião de ontem à noite chegou-se à conclusão de que de 17 autoras(es) de denuncias, dois tiveram demissões consumadas, além de uma testemunha. E já são esperadas novas demissões. "Quem entra na empresa já sabe que o Canal de Ética não funciona, é só um meio para identificar que denuncia", diz "Vânia".

"Em 2006 ele (um gerente geral) já passava a mão nas nádegas e 'desatacava' os sutiãs das funcionárias", conta "Anunciação", demitida, padecendo com depressão. Funcionárias como "Vania" dizem ter sofrido assédio sexual verbal, com frases como "Quando vejo você só penso em sexo!", repetida diante dos demais funcionários e de público externo, quando "sexo" era substituído por "trabalho". Também em tratamento por depressão, "Anair" diz que começou a ser perseguida desde que descobriram que aproveitava seu intervalo de descanso para participar de cultos na capela.

"Anair" disse que também passou a ser perseguida com chacotas e difamações. "Espalharam que eu ia trabalhar para dormir", conta, acrescentando que até clientes acabam sendo utilizados na perseguição. "Só tem três passageiros vestidos de macumbeiros. Vamos mandar a 'crentinha' para ver o que acontece!", relembra. Além disso, acrescentam "Vânia" e "Anair", há uma forte discriminação sexual pela chefia, expressa em frases como "Mulher não faz o que homem faz!", utilizada como motivo para afastamento.

Mulheres, entretanto, não são alvos exclusivos da discriminação, como relata, por exemplo, "Paulo". Homossexual assumido, acabou adoecendo e padecendo de depressão ao ser transformado em motivo de chacota pública. Portador de deficiência, "Fernando" reagiu contra discriminação e perseguição, já teve vitória e afirma que vai persistir na luta.

Publicado em: http://www.diariodepernambuco.com.br

"Acordei doente mental":

 Excelente artigo de Eliane Brum sobre a atual hipertrofia do que sejam doenças mentais
 
 
 
 
A quinta edição da “Bíblia da Psiquiatria”, o DSM-5, transformou numa “anormalidade” ser “normal”
Por Eliane Brum
 
A poderosa American Psychiatric Association (Associação Americana de Psiquiatria – APA) lançou neste final de semana a nova edição do que é conhecido como a “Bíblia da Psiquiatria”: o DSM-5. E, de imediato, virei doente mental. Não estou sozinha. Está cada vez mais difícil não se encaixar numa ou várias doenças do manual. Se uma pesquisa já mostrou que quase metade dos adultos americanos tiveram pelo menos um transtorno psiquiátrico durante a vida, alguns críticos renomados desta quinta edição do manual têm afirmado que agora o número de pessoas com doenças mentais vai se multiplicar. E assim poderemos chegar a um impasse muito, mas muito fascinante, mas também muito perigoso: a Psiquiatria conseguiria a façanha de transformar a “normalidade” em “anormalidade”. O “normal” seria ser “anormal”. 
 
A nova edição do Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) exibe mais de 300 patologias distribuídas por 947 páginas. Custa US$ 133,08 (com desconto) no anúncio de pré-venda no site da Amazon. Descobri que sou doente mental ao conhecer apenas algumas das novas modalidades, que tem sido apresentadas pela imprensa internacional. Tenho quase todas. “Distúrbio de Hoarding”. Tenho. Caracteriza-se pela dificuldade persistente de se desfazer de objetos ou de “lixo”, independentemente de seu valor real. Sou assolada por uma enorme dificuldade de botar coisas fora, de bloquinhos de entrevistas dos anos 90 a sapatos imprestáveis para o uso, o que resulta em acúmulos de caixas pelo apartamento. Remédio pra mim. “Transtorno Disfórico Pré-Menstrual”, que consiste numa TPM mais severa. Culpada. Qualquer um que convive comigo está agora autorizado a me chamar de louca nas duas semanas anteriores à menstruação. Remédio pra mim. “Transtorno de Compulsão Alimentar Periódica”. A pessoa devora quantidades “excessivas” de comida num período delimitado de até duas horas, pelo menos uma vez por semana, durante três meses ou mais. Certeza que tenho. Bastaria me ver comendo feijão, quando chego a cinco ou seis pratos fundo fácil. Mas, para não ter dúvida, devoro de uma a duas latas de leite condensado por semana, em menos de duas horas, há décadas, enquanto leio um livro igualmente delicioso, num ritual que eu chamava de “momento de felicidade absoluta”, mas que, de fato, agora eu sei, é uma doença mental. Em vez de leite condensado, remédio pra mim. Identifiquei outras anomalias, mas fiquemos neste parágrafo gigante, para que os transtornos psiquiátricos que me afetam não ocupem o texto inteiro. 
 
 
 
 
Há uma novidade mais interessante do que as doenças recém-inventadas pela nova “Bíblia”. Seu lançamento vem marcado por uma controvérsia sem precedentes. Se sempre houve uma crítica contundente às edições anteriores, especialmente por parte de psicólogos e de psicanalistas, a quinta edição tem sido atacada com mais ferocidade justamente por quem costumava não só defender o manual, como participar de sua elaboração. Alguns nomes reluzentes da psiquiatria americana estão, digamos, saltando do navio. Como não há cordeiros nesse campo, movido em parte pelos bilhões de dólares da indústria farmacêutica, é legítimo perguntar: perceberam que há abusos e estão fazendo uma “mea culpa” sincera antes que seja tarde, ou estão vendo que o navio está adernando e querem salvar o seu nome, ou trata-se de uma disputa interna de poder em que os participantes das edições anteriores foram derrotados por outro grupo, ou tudo isso junto e mais alguma coisa? 
 
Não conheço os labirintos da APA para alcançar a resposta, mas acredito que vale a pena ficarmos atentos aos próximos capítulos. Por um motivo acima de qualquer suspeita: o DSM influencia não só a Saúde Mental nos Estados Unidos, mas é o manual utilizado pelos médicos em praticamente todos os países, pelo menos os ocidentais, incluindo o Brasil. É também usado como referência no sistema de classificação de doenças da Organização Mundial da Saúde (OMS). É, portanto, o que define o que é ser “anormal” em nossa época – e este é um enorme poder. Vale a pena sublinhar com tinta bem forte que, para cada nova patologia, abre-se um novo mercado para a indústria farmacêutica. Esta, sim, nunca foi tão feliz – e saudável. 


O crítico mais barulhento do DSM-5 parece ser o psiquiatra Allen Frances, que, vejam só, foi o coordenador da quarta edição do manual, lançada em 1994. Professor emérito da Universidade de Duke, ele tem um blog no Huffington Post que praticamente usa apenas para detonar a nova Bíblia da Psiquiatria. Quando a versão final do manual foi aprovada, enumerou o que considera as dez piores mudanças da quinta edição, num texto iniciado com a seguinte frase: “Esse é o momento mais triste nos meus 45 anos de carreira de estudo, prática e ensino da psiquiatria”. Em carta ao The New York Times, afirmou: “As fronteiras da Psiquiatria continuam a se expandir, a esfera do normal está encolhendo”. 
 
Entre suas críticas mais contundentes está o fato do DSM-5 ter transformado o que chamou de “birra infantil” em doença mental. A nova patologia é chamada de “Transtorno Disruptivo de Desregulação do Humor” e atingiria crianças e adolescentes que apresentassem episódios frequentes de irritabilidade e descontrole emocional. No que se refere à patologização da infância, o comentário mais incisivo de Allen Frances talvez seja este:
“Nós não temos ideia de como esses novos diagnósticos não testados irão influenciar no dia-a-dia da prática médica, mas meu medo é que isso irá exacerbar e não amenizar o já excessivo e inapropriado uso de medicação em crianças. Durante as duas últimas décadas, a Psiquiatria Infantil já provocou três modismos — triplicou o Transtorno de Déficit de Atenção, aumentou em mais de vinte vezes o autismo e aumentou em quarenta vezes o transtorno bipolar na infância. Esse campo deveria sentir-se constrangido por esse currículo lamentável e deveria engajar-se agora na tarefa crucial de educar os profissionais e o público sobre a dificuldade de diagnosticar as crianças com precisão e sobre os riscos de medicá-las em excesso. O DSM-5 não deveria adicionar um novo transtorno com o potencial de resultar num novo modismo e no uso ainda mais inapropriado de medicamentos em crianças vulneráveis". 
A epidemia de doenças como TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade) tem mobilizado gestores de saúde pública, assustados com o excesso de diagnósticos e a suspeita de uso abusivo de drogas como Ritalina, inclusive no Brasil. E tem motivado algumas retratações por parte de psiquiatras que fizeram seu nome difundindo a doença. Uma reportagem do The New York Times sobre o tema conta que o psiquiatra Ned Hallowell, autor de best-sellers sobre TDAH, hoje arrepende-se de dizer aos pais que medicamentos como Adderall e outros eram “mais seguros que Aspirina”. Hallowell, agora mais comedido, afirma: “Arrependo-me da analogia e não direi isso novamente”. E acrescenta: “Agora é o momento de chamar a atenção para os perigos que podem estar associados a diagnósticos displicentes. Nós temos crianças lá fora usando essas drogas como anabolizantes mentais – isso é perigoso e eu odeio pensar que desempenhei um papel na criação desse problema”. No DSM-5, a idade limite para o aparecimento dos primeiros sintomas de TDAH foi esticada dos 7 anos, determinados na versão anterior, para 12 anos, aumentando o temor de uma “hiperinflação de diagnósticos”. 
 
Pensar sobre a controvérsia gerada pelo nova versão da “Bíblia da Psiquiatria” é pensar sobre algumas construções constitutivas do período histórico que vivemos. Construções culturais que dizem quem somos nós, os homens e mulheres dessa época. A começar pelo fato de darmos a um grupo de psiquiatras o poder – incomensurável – de definir o que é ser “normal”. E assim interferir direta e indiretamente na vida de todos, assim como nas políticas governamentais de saúde pública, com consequências e implicações que ainda precisam ser muito melhor analisadas e compreendidas. Sem esquecer, em nenhum momento sequer, que a definição das doenças mentais está intrinsecamente ligada a uma das indústrias mais lucrativas do mundo atual, a farmacêutica.
 
Parte dos organizadores não gosta que o manual seja chamado de “Bíblia”. Mas, de fato, é o que ele tem sido, na medida em que uma parcela significativa dos psiquiatras do mundo ocidental trata os verbetes como dogmas, alterando a vida de milhões de pessoas a partir do que não deixa de ser um tipo de crença. Talvez seja em parte por isso que o diretor do National Institute of Mental Health (Instituto Nacional de Saúde Mental – NIMH), possivelmente a maior organização de pesquisa em Saúde Mental do mundo, tenha anunciado o distanciamento da instituição das categorias do DSM-5. Thomas Insel escreveu em seu blog que o DSM não é uma Bíblia, mas no máximo um “dicionário”: “A fraqueza [do DSM] é sua falta de fundamentação. Seus diagnósticos são baseados no consenso sobre grupos de sintomas clínicos, não em qualquer avaliação objetiva em laboratório. (...) Os pacientes com doenças mentais merecem algo melhor”. O NIMH iniciou um projeto para a criação de um novo sistema de classificação, incorporando investigação genética, imagens, ciência cognitiva e “outros níveis de informação” – o que também deve gerar controvérsias.
 
A polêmica em torno do DSM-5 é uma boa notícia. E torço para que seja apenas o início de um debate sério e profundo, que vá muito além da Medicina, da Psicologia e da ciência. “Há pelo menos 20 anos tem se tratado como doença mental quase todo tipo de comportamento ou sentimento humano”, disse a psicóloga Paula Caplan à BBC Brasil. Ela afirma ter participado por dois anos da elaboração da edição anterior do manual, antes de abandoná-la por razões “éticas e profissionais”, assim como por ter testemunhado “distorções em pesquisas”. Escreveu um livro com o seguinte título: “Eles dizem que você é louco: como os psiquiatras mais poderosos do mundo decidem quem é normal”.
 
A vida tornou-se uma patologia. E tudo o que é da vida parece ter virado sintoma de uma doença mental. Talvez o exemplo mais emblemático da quinta edição do manual seja a forma de olhar para o luto. Agora, quem perder alguém que ama pode receber um diagnóstico de depressão. Se a tristeza e outros sentimentos persistirem por mais de duas semanas, há chances de que um médico passe a tratá-los como sintomas e faça do luto um transtorno mental. Em vez de elaborar a perda – com espaço para vivê-la e para, no tempo de cada um, dar um lugar para essa falta que permita seguir vivendo –, a pessoa terá sua dor silenciada com drogas. É preciso se espantar – e se espantar muito.
 
Vale a pena olhar pelo avesso: quem são essas pessoas que acham que o “normal” é superar a perda de uma mãe, de um pai, de um filho, de um companheiro, rapidamente? Que tipo de ser humano consegue essa proeza? Quem seríamos nós se precisássemos de apenas duas semanas para elaborar a dor por algo dessa magnitude? Talvez o DSM-5 diga mais dos psiquiatras que o organizaram do que dos pacientes. 
 
Há ainda mais uma consequência cruel, que pode provocar muito sofrimento. Ao transformar o que é da vida em doença mental, os defensores dessa abordagem estão desamparando as pessoas que realmente precisam da sua ajuda. Aquelas que efetivamente podem ser beneficiadas por tratamento e por medicamentos. Se quase tudo é patologia, torna-se cada vez mais difícil saber o que é, de fato, patologia. Por sorte, há psiquiatras éticos e competentes que agem com consciência em seus consultórios. Mas sempre foi difícil em qualquer área distinguir-se da manada – e mais ainda nesta área, que envolve o assédio sedutor, lucrativo e persistente dos laboratórios farmacêuticos. 
 
Se as consequências não fossem tão nefastas, seria até interessante. Ao considerar que quase tudo é “anormal”, os organizadores do manual poderiam estar chegando a uma concepção filosófica bem libertadora. A de que, como diria Caetano Veloso, “de perto ninguém é normal”. E não é mesmo, o que não significa que seja doente mental por isso e tenha de se tornar um viciado em drogas legais para ser aceito. Só se pode compreender as escolhas de alguém a partir do sentido que as pessoas dão às suas escolhas. E não há dois sentidos iguais para a mesma escolha, na medida em que não existem duas pessoas iguais. A beleza do humano é que aquilo que nos une é justamente a diferença. Somos iguais porque somos diferentes. 
 
Esse debate não pertence apenas à Medicina, à Psicologia e à ciência, ou mesmo à Economia e à política. É preciso quebrar os monopólios sobre essa discussão, para que se torne um debate no âmbito abrangente da cultura. É de compreender quem somos e como chegamos até aqui que se trata. E também de quem queremos ser. A definição do que é “normal” e “anormal” – ou a definição de que é preciso ter uma definição – é uma construção cultural. E nos envolve a todos. Que cada vez mais as definições sobre normalidade/anormalidade sejam monopólios da Psiquiatria e uma fonte bilionária de lucros para a indústria farmacêutica é um dado dos mais relevantes – mas está longe de ser tudo. 
 
E não, eu não acordei doente mental. Só teria acordado se permitisse a uma Bíblia – e a pastores de jaleco – determinar os sentidos que construo para a minha vida. 
 
Eliane Brum, jornalista, escritora e documentarista. Autora de um romance - Uma Duas (LeYa) - e de três livros de reportagem: Coluna Prestes – O avesso da lenda(Artes e Ofícios), A vida que ninguém vê (Arquipélago, Prêmio Jabuti 2007) e O olho da rua - uma repórter em busca da literatura da vida real (Globo).
 
(Eliane Brum escreve às segundas-feiras.)
 
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quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Confira palestra do psicólogo Arthur Lobato no II CONSAT



Já estão disponíveis no site do II CONSAT todos os vídeos do II Congresso dos Servidores da Administração Tributária do Estado de Minas Gerais, que aconteceu dos dias 13 a 15 de dezembro de 2013 e reuniu Deputados da esfera Federal e Estadual, Prefeitos, Secretários Municipais, empresários, representantes sindicais do Fisco de todo o país, representantes de outras categorias de servidores públicos mineiros e Gestores e Auditores Fiscais da Receita Estadual de diversas regiões do Estado.

As palestras estão disponíveis na íntegra e foram divididas por painéis, que trataram de temas importantes e assuntos relevantes para todos os servidores da Administração Tributária, como a “Formação, Capacitação e Qualificação dos Servidores”, “Os Reflexos da Implementação da PEC 186 nas Administrações Tributárias Estaduais e Municipais”, “O Papel dos Servidores da Administração Tributária para a Concretização de um Modelo de Eficácia”, “Assédio Moral na Administração Pública”, “Desvio de Função e a Terceirização Ilícita”, “Práticas Anti-sindicais”, “Negociação Coletiva e Direito de Greve no Serviço Público: Dificuldades e Perspectivas”, dentre outros.

Dentre a distinta lista de convidados, o II CONSAT teve a honra de contar com a ilustre participação do renomado tributarista, Dr. Hugo de Brito Machado Segundo, que com seu vasto conhecimento na área elaborou um parecer sobre “O Lançamento do Crédito Tributário: Dever Indeclinável dos Servidores da Administração Tributária”, que também foi tema da Conferência Magna de Abertura da segunda edição do congresso. Acesse o site do CONSAT pelo WWW.CONSATMG.COM.BR, confira e divulgue as palestras.